Desenganem-se os crentes. Os líderes europeus e, em especial, o Presidente do Eurogrupo, Dijsselbloem, mestre por sinal reconhecido por todos menos pela universidade irlandesa (University College Cork), fazem tudo para humilhar torpemente uma nação tão impregnada de valores como é a Grécia. Humilham um povo, hipotecam a geração de agora e do futuro, escarnecem do mal de milhares de pobres que nobremente lutam sem saber o dia de amanhã, e tudo porque estes senhores, chamem-lhe donos da Europa enquanto eu lhes chamo miseráveis, decidem impôr um plano económico a um país sem tampouco ouvir as propostas do outro lado da mesa.
Lembro-me que Varoufakis alertava, e alertou sistematicamente, para a falta de diálogo e de compreensão na mesa de negociações. Nunca o ouvimos recusar e negar a culpa dos governos gregos no preenchimento das lacunas sócio-económicas, da escassez de reformas de estruturais a fundo, da inevitável insustentabilidade deste sistema. Ouvimos, pelo contrário, Varoufakis pedir uma conjunto de reformas estruturais que não afectassem novamente os mais desfavorecidos, que a dívida se tornasse sustentável para que a Grécia voltasse aos mercados, mas tudo isso se tornou imperceptível para os ouvidos do Eurogrupo - assim sendo, divergia-se por meio ponto percentual no conjunto de propostas discutidas pelos credos e o ministro das finanças grego.
Todos ignoraram quando, no seu blogue pessoal, Varoufakis respondera directamente a Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, quanto à sua remissão para a negociação difícil 'de todas as partes'. É claro que hoje consigo decifrar plenamente o que isto queria dizer: o objectivo, desde do início, não era uma negociação 'de todas as partes', mas somente de uma única parte que impunha medidas dogmáticas a toda uma nação.
O pedido de reformas estruturais a fundo sem cortes nas pensões e nos salários, sem reduzir as condições de vida da população, nem sequer estava em consideração; estava, isso sim, uma agenda de mais cortes selvagens nos sectores mais frágeis, acompanhados de aumentos de taxas de juro.
Nada é ao acaso. As pessoas inteligentes, que questionam sempre os métodos impostos à força que se haviam tornado num paradigma dogmático, nem sempre são bem-vindas no seio dos mais poderosos. Assim, não tenho dúvidas que Varoufakis foi afastado por esses mesmos motivos, porque este pseudo-mestre do Eugrupo e Lagarde não suportaram um outro caminho, questionando o traçado por si, e com outras medidas à mistura.
Tsipras tem vindo a recuar nas negociações. O principal motivo de o fazer é, evidentemente, evitar mais disparidades do que aquelas que inevitavelmente surgiram nos últimos anos. Mas outra coisa, mais forte de todo esse desejo de reconciliação, atravessa-se no caminho do primeiro-ministro: um novo resgate, com ainda mais medidas asfixiantes para a economia e para a população, e com um tempo limite de aceitação no parlamento grego até quarta-feira, passando, dessa forma, a uma (quase) certa insustentabilidade democrática.
O fim desta farsa negocial começou ontem, quando Schäuble apresentava um documento com duas alternativas possíveis para a Grécia: permanecendo no Euro com um novo resgate ou com um 'time-out' onde, nos próximos 5 anos, estariam os gregos afastados desta união monetária, suportando-os com ajudas humanitárias caso necessário.
Tudo se resume, uma vez mais, às palavras de Varoufakis: «O problema é que a UE não gosta de democracia».
Álvaro Machado - 20:32 - 12-07-2015
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domingo, 12 de julho de 2015
A cimeira da crucificação
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quinta-feira, 2 de julho de 2015
El-rei regressa na apresentação do livro
Quem não gosta de ler um bom livro? Acaba por ser uma intimidade singela, esta do autor para com o leitor, quase num universo paralelo em que, longe compreensão, nos compreendemos perfeitamente. Desde cedo me habituei a ler: primeiro veio as Minas de Salomão traduzidas pelo Eça, depois o jornal expresso acabou por despertar uma veia mais crítica no sentido literal da palavra.
Como vos dizer..., sempre tive por gosto ler e, sobretudo, ler bons livros, bons jornais (subentenda-se aqui escritores extraordinários e cronistas de referência). A loucura de Dostoievski transposta num pedaço de papel, o universo apocalíptico em que Dumas construiu a personalidade de Edmond Dantès, em paralelo a mágoa profunda e o espasmo futurista de Álvaro de Campos, isso fez de mim o que sou hoje (os tais génios literatos), não duvidem disso nem por um segundo. As questões mais profundas, politico-económicas, político-sociais, democrático-concretas e democrático-abstractas, aprendi-as com os tais cronistas de referência, nomeadamente Miguel Sousa Tavares, Ricardo Costa, Daniel Oliveira, Pacheco Pereira (e por aí fora...).
Mas agora de volta à realidade. O que vos trago aqui é o recente lançamento do livro de Miguel Relvas. Não se apoquentem, ele nem é o autor como os autores que em cima falei nem é tão pouco "autor" na concepção nua da palavra; entenda-se: organizou o lançamento de um livro escrito a "meias" com Paulo Júlio e chamou os pesos pesados da política e do PSD.
Como vos dizer..., sempre tive por gosto ler e, sobretudo, ler bons livros, bons jornais (subentenda-se aqui escritores extraordinários e cronistas de referência). A loucura de Dostoievski transposta num pedaço de papel, o universo apocalíptico em que Dumas construiu a personalidade de Edmond Dantès, em paralelo a mágoa profunda e o espasmo futurista de Álvaro de Campos, isso fez de mim o que sou hoje (os tais génios literatos), não duvidem disso nem por um segundo. As questões mais profundas, politico-económicas, político-sociais, democrático-concretas e democrático-abstractas, aprendi-as com os tais cronistas de referência, nomeadamente Miguel Sousa Tavares, Ricardo Costa, Daniel Oliveira, Pacheco Pereira (e por aí fora...).
Mas agora de volta à realidade. O que vos trago aqui é o recente lançamento do livro de Miguel Relvas. Não se apoquentem, ele nem é o autor como os autores que em cima falei nem é tão pouco "autor" na concepção nua da palavra; entenda-se: organizou o lançamento de um livro escrito a "meias" com Paulo Júlio e chamou os pesos pesados da política e do PSD.
"O outro lado da governação" - esse é o nome da grande obra. Eis que a cooperação entre Relvas e Paulo Júlio trouxe ar puro à literatura portuguesa e aos portugueses. Especialmente porque são dois ex-membros do governo, colocados na boca do povo injustamente. «Houve uma reforma profunda que não foi terminada, mas que foi bem feita», atira Miguel Relvas na apresentação de hoje.
Saiu por cima hoje. De consciência limpa, afinal trabalhou muito intensamente na reforma da administração local, fez muito pelo seu país. Miguel Relvas não apresentou um livro, fez política, aquilo a que está habituado portanto, e fê-la da pior maneira que há: a mentir e sem um pingo de vergonha.
Álvaro Machado - 23:29 - 02-07-2015
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terça-feira, 30 de junho de 2015
Dias cinzentos para o Governo Português
Guardo sábias palavras na minha memória. Uma das que mais fazem sentido, nos dias de hoje, são certamente as de Ricardo Araújo Pereira: «Eu prefiro não ser racional no futebol, não o sou de todo, mas sou-o na política. Sou muito racional. Vejo as coisas imparcialmente e contesto o que está mal. Agora, não me peçam é para defender custe o que custar um partido, uma cor partidária.».
O coligação PSD-CDS tem passado, nos últimos dias, um período menos reluzente no seu percurso governativo, claro que, com isso, supõe-se que algum dia foi passado assim. Façam vocês as vossas suposições.
i. O Tribunal de Contas pronuncia-se, em pleno dia de sol, quanto à privatização da EDP e da REN. O governo não «acautelou os interesses estratégicos do Estado Português após a conclusão do processo de privatização.»
E aí está: eis como destruir num ápice toda uma crença abléptica dos simpatizantes deste governo e da sua política de privatizações. Mas não façamos por menos, desde já ressalvando o papel fulcral da Parpública em todo este processo: permitiu, em todo o caso, que o BESI (Banco Espírito Santo Investimento
) fosse avaliador do Estado, inicialmente, e fosse, à posteriori, consultor das empresas que manifestaram interesse no negócio.
Não se comecem já a rir. Contenham-se mais uma bocado, por favor. Vamos supor que o BESI foi honesto e não proporcionou conflitos de interesses nesta matéria, parece menos grave a coisa? Parece-me que sim, eu também concordo; mas revertam o sentido disso: vamos agora supor um cenário hipoteticamente mais drástico: que a CTG e a State Grid não cumprem o acordo... Pasme-se, o governo não colocou qualquer cláusula no contracto em caso de incumprimento!
(Agora sim, partam-se a rir...)
ii. Por cá, já estamos habituados a uma particularidade de Portugal aquando que comparado com outros países da União Europeia: quando se trata de progresso, desenvolvimento na estrutura produtiva e do tecido empresarial, redução da despesa do país ou crescimento económico mantemos a fasquia no lixo; em contrário, se estiver a ser avaliado os níveis de desemprego, de fuga de impostos, de corrupção..., aí já somos colocados na ribalta.
Hoje foi o dia de nos lavarem o rosto impregnado de mentiras: Portugal tem níveis de desemprego nos 13,2%, ficando assim no 5º lugar dos países com mais desempregados da UE; já no desemprego jovem, subimos mais uns pontos, ficando assim com o 4º lugar dos países com mais jovens desempregados (33,3%).
Em suma, apesar de certos indivíduos não terem qualquer consciência do estado em que realmente está o nosso país, os dados continuam, diariamente, a prová-lo em contrário. Esperemos avidamente pelos sorrisinhos de Paulo Portas e de Passos Coelho.
Álvaro Machado - 21:19 - 30-06-2015
O coligação PSD-CDS tem passado, nos últimos dias, um período menos reluzente no seu percurso governativo, claro que, com isso, supõe-se que algum dia foi passado assim. Façam vocês as vossas suposições.
i. O Tribunal de Contas pronuncia-se, em pleno dia de sol, quanto à privatização da EDP e da REN. O governo não «acautelou os interesses estratégicos do Estado Português após a conclusão do processo de privatização.»
E aí está: eis como destruir num ápice toda uma crença abléptica dos simpatizantes deste governo e da sua política de privatizações. Mas não façamos por menos, desde já ressalvando o papel fulcral da Parpública em todo este processo: permitiu, em todo o caso, que o BESI (Banco Espírito Santo Investimento
) fosse avaliador do Estado, inicialmente, e fosse, à posteriori, consultor das empresas que manifestaram interesse no negócio.Não se comecem já a rir. Contenham-se mais uma bocado, por favor. Vamos supor que o BESI foi honesto e não proporcionou conflitos de interesses nesta matéria, parece menos grave a coisa? Parece-me que sim, eu também concordo; mas revertam o sentido disso: vamos agora supor um cenário hipoteticamente mais drástico: que a CTG e a State Grid não cumprem o acordo... Pasme-se, o governo não colocou qualquer cláusula no contracto em caso de incumprimento!
(Agora sim, partam-se a rir...)
ii. Por cá, já estamos habituados a uma particularidade de Portugal aquando que comparado com outros países da União Europeia: quando se trata de progresso, desenvolvimento na estrutura produtiva e do tecido empresarial, redução da despesa do país ou crescimento económico mantemos a fasquia no lixo; em contrário, se estiver a ser avaliado os níveis de desemprego, de fuga de impostos, de corrupção..., aí já somos colocados na ribalta.
Hoje foi o dia de nos lavarem o rosto impregnado de mentiras: Portugal tem níveis de desemprego nos 13,2%, ficando assim no 5º lugar dos países com mais desempregados da UE; já no desemprego jovem, subimos mais uns pontos, ficando assim com o 4º lugar dos países com mais jovens desempregados (33,3%).
Em suma, apesar de certos indivíduos não terem qualquer consciência do estado em que realmente está o nosso país, os dados continuam, diariamente, a prová-lo em contrário. Esperemos avidamente pelos sorrisinhos de Paulo Portas e de Passos Coelho.
Álvaro Machado - 21:19 - 30-06-2015
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domingo, 28 de junho de 2015
Contra tudo e contra todos.
Agora o tema reside no referendo que a Grécia decretou para o povo decidir sobre o seu futuro. A Grécia, berço da democracia, não poderia deixar de a exercer em todo o seu esplendor.
Ora, eis que aqui surge a tal dualidade de critérios: espantam-se, alguns, por um governo eleito democraticamente exercer um mecanismo democrático como é o referendo, mas creio que esse espanto advém todo do anti-grécia que inocentemente se tem incentivando; mantêm-se indiferentes, outros, quanto ao referendo inglês no que toca à permanência ou não permanência da Inglaterra na União Europeia.
Aproveito para evidenciar factos também: um governo de esquerda (que tantas vezes é rotulado de extremismo puro na verdadeira concepção da palavra) tem levado as negociações por bem, moderadamente, sem adoptar nenhuma posição mais violenta que rompa de vez com a permanência grega no euro e, além do mais, se mantém ao longo destes 5 meses no Eurogrupo com as ideias bem fincadas, com uma agenda própria e repleta de propostas que vão noutro caminho que não o da austeridade.
Por isso, deixem-se de guerrinhas quando nem tampouco sabem quem são os verdadeiros oponentes.
Álvaro Machado - 02:03 - 28-06-2015
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segunda-feira, 22 de junho de 2015
«A nossa proposta é simples, eficaz e mutuamente vantajosa.»
Ler documento na íntegra
Tenho pena. Pena que os meus governantes insurjam as suas vozes inócuas contra os que transpõem o verdadeiro conceito de democracia, que elevam a sua força além e que não se submetem a um injustificável e redondo não.
E sobretudo é de admirar o gesto nobre com que Varoufakis reconhece os erros do seu país no passado, reconhece que é necessário um conjunto de reformas estruturais para incutir nos gregos uma maior responsabilidade. Tudo isso é possível, mas sem destruir as vidas que estes credores tão massivamente destroem.
Está aqui tudo. Todo o percurso do novo governo grego está, em linhas gerais, nesta publicação de Varoufakis. Como disse, não se escondem nas traseiras da covardia, não se mantêm inertes na demagogia, antes se impregnam de propostas e de vida nova para a União Europeia.
Têm todo o meu apoio. Enquanto alguns lutam pelo seu povo, o meu Chefe de Estado, de nome Cavaco Silva, diz numa visita à Roménia: «Façam um bom oó».
A diferença reside num homem que de político nada tem e que da política nada quer, para um ignóbil que fez do seu percurso politiquice e sempre em interesse e beneficio próprio.
Álvaro Machado - 00:47 - 22-06-2015
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Não nos rendemos.
Recusam a austeridade e recusam-na afincadamente, apesar de terem cedido em algumas das exigências europeias (porque numa união verdadeira há-que saber exigir e ceder no tempo adequado). A austeridade provou-nos como tornar um país já de si vulnerável ainda mais desprotegido, com mais assimetrias e sem mais nenhuma alternativa senão cortes em sectores sensíveis como o são as pensões.
Força. Não cedam perante pressões e interesses económicos. Se o impasse são 2 mil milhões de euros, batam-se de frente, com propostas além-austeridade e não pré-concebidas, porque uma união é mais do que credores, economistas e moralizadores. Uma união é ajudar os que estão no chão a erguer-se novamente, plenos de vitalidade.
Álvaro Machado - 01:20 - 19-06-2015
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segunda-feira, 25 de maio de 2015
O sucesso do FMI em Portugal
Sabendo que, à partida, o Fundo Monetário Internacional se havia tornado na última esperança para os portugueses voltarem a ver a luz do dia, e após tantos sacrifícios os membros do governo exaltarem esses mesmos feitos alcançados pelo povo lusitano, eis que o próprio FMI nos dá o primeiro alerta: afinal não é bem assim.
Os défices foram reduzidos e o financiamento
do mercado recuperado. E depois disso? Quando se exalta um feito memorável, creio eu, ele irá perdurar no tempo infinitamente, mas será assim neste caso em concreto?
Ora vejamos: existem, segundo estes especialistas, cinco prioridades a médio-longo prazo:
1) Garantir um equilíbrio interno (que significa, por exemplo, não ter uma taxa de desemprego demasiado alta)
2) Conseguir um equilíbrio externo (não ter défices externos sucessivos)
3) Aumentar o crescimento potencial
4) Reduzir o endividamento dos privados
5) Assegurar a sustentabilidade orçamental
Então, tendo em conta estes cinco factores ou estas cinco prioridades, deparámo-nos, diria, com o primeiro fracasso deste programa de ajustamento – o insucesso.
E ao contrário do feito que exaustivamente os membros do governo proclamam (as vozes do PSD, entenda-se) no que toca ao desaparecimento, no exterior, dos défices, eis que o FMI emite um parecer na corrente oposta, afirmando a insustentabilidade dessas alterações, bem como se mantém tudo menos impressionado com o crescimento das exportações em termos brutos: «Não é prova de que Portugal tenha aumentado de forma significativa a competitividade», arrematam.
Pois bem, isto leva-nos a duvidar daquilo que até hoje alguns defenderam afincadamente como «único caminho possível». Se bem me recordo, as bandeiras de campanha para as próximas legislativas erguidas pela coligação têm sido, efectivamente, a diminuição do desemprego (que os dados do INE vieram deitar por terra tal teoria), o equilíbrio da balança (que vemos ter sido possível pela diminuição das importações, e que também curiosamente é um factor ilusivo porque num futuro próximo irão aumentar consideravelmente; e também pela falsa questão das exportações brutas, que vemos não ser algo viável), a melhoria das condições de vida (se internamente a população não tem poder de compra como poderá fazer a economia crescer e consequentemente melhorar as condições da população?)…
Já se diz, e bem, que nem tudo o que parece é. O (in)sucesso do FMI está à vista de todos.
Álvaro Machado - 00:47 - 25-05-2015
Os défices foram reduzidos e o financiamento
do mercado recuperado. E depois disso? Quando se exalta um feito memorável, creio eu, ele irá perdurar no tempo infinitamente, mas será assim neste caso em concreto?Ora vejamos: existem, segundo estes especialistas, cinco prioridades a médio-longo prazo:
1) Garantir um equilíbrio interno (que significa, por exemplo, não ter uma taxa de desemprego demasiado alta)
2) Conseguir um equilíbrio externo (não ter défices externos sucessivos)
3) Aumentar o crescimento potencial
4) Reduzir o endividamento dos privados
5) Assegurar a sustentabilidade orçamental
Então, tendo em conta estes cinco factores ou estas cinco prioridades, deparámo-nos, diria, com o primeiro fracasso deste programa de ajustamento – o insucesso.
E ao contrário do feito que exaustivamente os membros do governo proclamam (as vozes do PSD, entenda-se) no que toca ao desaparecimento, no exterior, dos défices, eis que o FMI emite um parecer na corrente oposta, afirmando a insustentabilidade dessas alterações, bem como se mantém tudo menos impressionado com o crescimento das exportações em termos brutos: «Não é prova de que Portugal tenha aumentado de forma significativa a competitividade», arrematam.
Pois bem, isto leva-nos a duvidar daquilo que até hoje alguns defenderam afincadamente como «único caminho possível». Se bem me recordo, as bandeiras de campanha para as próximas legislativas erguidas pela coligação têm sido, efectivamente, a diminuição do desemprego (que os dados do INE vieram deitar por terra tal teoria), o equilíbrio da balança (que vemos ter sido possível pela diminuição das importações, e que também curiosamente é um factor ilusivo porque num futuro próximo irão aumentar consideravelmente; e também pela falsa questão das exportações brutas, que vemos não ser algo viável), a melhoria das condições de vida (se internamente a população não tem poder de compra como poderá fazer a economia crescer e consequentemente melhorar as condições da população?)…
Já se diz, e bem, que nem tudo o que parece é. O (in)sucesso do FMI está à vista de todos.
Álvaro Machado - 00:47 - 25-05-2015
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sábado, 23 de maio de 2015
Restaurante social no rés-do-chão da Igreja
Portugal, país que vi desde que abri os olhos e país que provavelmente irei ver até ao último suspiro, deixou-me agora um estilo de vida bem diferente daquele que em tempos havia encontrado no livro de Herberto Helder. Parece-me claro: tenho de admitir a vergonha, o embaraçoso destino fatalista que se me ergueu, a impureza, o marginalismo de ser pobre, de não ter dinheiro
para pôr pão ou restos de comida à mesa.O meu país - e os que indecentemente o fazem seu sem o sentir na verdade – tornou-me num intolerado, num homem de extremos, num vadio que se humilha todas as santas noites quando recorre àquela exígua sala do restaurante social, no rés-do-chão da Igreja. Como eu há milhares. Milhares que me pesam mais do que o eu estar ali comendo que nem um desvairado. Sinto-lhes a vergonha a subir no sangue, o coração numa batida tão veloz que parece iminente um ataque, e o ambiente pesado que os acerca é tão obscuro como quando nos sentimos abandonados ou esquecidos por alguém que amámos.
Os rostos lívidos diante dos meus olhos doem só de ver. As histórias que todas as noites oiço do vizinho que está desempregado há quatro anos, com os seus dois filhotes pequenitos e com a mulher internada há um mês deixam-me de rastos.
Eu, que não passo de um miserável, de um pobre sem rumo, todas as noites morro um pouco mais por dentro; todas as noites levo horas desperto porque tu, Portugal, não nos levaste só dinheiro nem nos privaste somente do trabalho
ou de caprichos que eventualmente havíamos tido. Privaste-nos, isso sim, da nossa dignidade, do nosso orgulho, dos nossos sonhos que agora se encontram num baú pequeno sem possível abertura.Portugal, não me humilhes mais, por favor.
Álvaro Machado - 21:48 - 23-05-2015
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quinta-feira, 2 de abril de 2015
Um breve dizer, um longo sacrifício
Lembro-me que há dias sua santidade havia dito que os homens tinham arranjado um eufemismo para a morte dos idosos, para a razão de todo aquele doloroso sofrimento. Essa palavra seria nada mais do que «eutanásia».
O mesmo poder-se-á aplicar aos nossos políticos e aos que fervorosamente lhes mantêm apoio incondicional. O que temos assistido, neste últimos anos de governação PSD/CDS, é a um aproximar flagrante do abismo, onde os sacrifícios exigidos aos portugueses foram tomados em vão, ou não será do vosso entender que o desemprego de milhares de nós, a fome galopante que os interesses económicos e o sector bancário impingem, a completa estagnação da economia e a queda livre do investimento nos tornam um país pior?
Como podemos dar uma chance ao mesmo Passos Coelho que disse que o «estar desempregado era uma oportunidade»? Como o podemos dizer aos contribuintes que investiram na educação e na formação dos jovens dos dias de hoje que foi tudo em vão? Afinal de contas, emigraram mais de 165 mil jovens. Os beneficiados, como sempre, são os países que os receberão: não lhes sendo dispendiosa a formação, é com bom grado que recebem jovens qualificados para desenvolver os sectores mais diversos.
Ah, um momento. Esqueci-me que estão em preparação de eleições e portanto o país tem estado melhor. Já se adoptam palavras como «crescimento» e «emprego» ao invés da já referida estagnação e desemprego; o que se esquecem de dizer é que, e permita-me o senhor tal franqueza momentânea, esses dados estatísticos não passam de pura demagogia. Senão reparemos: os níveis de desemprego em Portugal descem porquê? Porque a classe média e os recém-formados emigram, bem como os que não estão inscritos no centro de emprego, e é por isso que, não sendo contabilizados, o desastre passa de uma hipérbole para um eufemismo.
Continuam a esquecer-se do essencial. Continuam a passar despercebidos ao facto de sermos um país sem uma agricultura sustentável onde importámos mais de 60% da alimentação; onde os nossos barcos são essencialmente artesanais e, por isso, não rentáveis para as pescas num mar longínquo em que a refrigeração é crucial; onde o interior é desertificado, sem nenhum investimento, sem nenhum incentivo que potencialize a entrada de novas empresas para desenvolver essas regiões fantasma…
Tentam convencer-nos que as exportações tendem a aumentar. O que não esmiúçam é que, efectivamente, exportar demasiado nem sempre é sinal de ‘peso’ na economia. Somos um país que depende em mais de 60% do turismo e onde as exportações não têm um valor acrescentado forte e capaz de competir no mercado internacional. Exportar têxteis e vinho não é suficiente. Falemos da Alemanha e tiremos dos alemães os bons exemplos: refiro-me a um país que não tem quase nenhuns recursos no solo, mas que, ainda assim, é dos países com a indústria pesada mais forte, que transforma, p.e, o cobre em produtos de grande valor acrescentado no mercado; ou então falemos da indústria automóvel, que exporta quantidades bíblicas de Mercedes para os EUA. E é por acaso que isto acontece, meus amigos? Não, não é. Tiveram e têm uma grande visão para o seu país e sabem aquilo que realmente querem. Só isso.
Mas não me venham com ilusões. Uma breve palavra como «flexibilização» é só um eufemismo barato que um ignóbil qualquer usa no parlamento, vamos lá ver, até soa bem.
Como a eutanásia encobre a morte, a flexibilização encobre a degradação das condições dos portugueses como nunca antes se viu. Essa é a verdade. Nua e crua.
Álvaro Machado – 02:26 – 28-03-2015
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Infinita Síria
(Derrubem al-Assad!)
Há uns tempos atrás escrevia indignado como é que em pleno século XXI – século esse, julgava eu, que poder-se-ia descrever pela liberdade e pela paz – se tolerava um guerra civil levada a cabo pela violência extrema, levando consigo homens, mulheres e crianças à velocidade da luz. A ONU queria intervir (EUA, Inglaterra, França e Alemanha, mais concretamente) para lutar ao lado dos rebeldes e acabar de uma vez por todas com o regime ditatorial de Bashar al-Assad e com os seus massacres. No entanto, os russos e os chineses vetaram, por duas vezes, essas intervenções e, vai-se lá saber porquê, logo dois países que internamente a democracia deixa muito a desejar. Hoje retomo a escrever e, mais do que indignado, escrevo de cólera e escrevo intolerante. Em doses excessivas! Basta. Basta de guerra, basta de esquemas políticos, basta da inércia das pessoas, basta da comunicação social tentar encobrir o que realmente se passa!
A 26 de Janeiro do ano de 2011 ecoam as primeiras vozes que se opõem ao regime, dois meses depois, a 15 de Março, a revolta armada começa sem se vislumbrar fim à vista. Ninguém sabia muito bem o que aconteceria, na prática, com este eclodir para o futuro político do país, porém, todos sabiam uma coisa: muitas batalhas sangrentas ir-se-iam travar, inocentes injustamente arrastar-se-iam nelas, vidas levadas seriam numa barca infame…
Hoje, dia 10 de Fevereiro de 2014, o número de óbitos não tem número exacto. Dizem uns que são mais de 130 mil que partiram, dizem outros que ultrapassam os 200 mil. Numa notícia, que de seguida transcrevo, de Dezembro de 2013, podemos ver que os números falam por si nesta catástrofe:
“A maioria dos mortos é de civis – aproximadamente, entre elas, 7000 são menores -, cujo número total chega a 44.381. Nas fileiras da oposição armada, houve neste período 27.746 baixas, entre as quais há 2.221 soldados desertores.
O Observatório afirmou que há um grande número de combatentes de nacionalidade estrangeira, embora não tenha detalhado seu número.
Entre os apoiantes do regime, pelo menos 31.174 soldados das forças regulares e 19.256 milicianos e informantes morreram.
Também foram mortos 232 membros do grupo xiita Hezbollah e 265 integrantes de facções xiitas, que lutam com as tropas do regime de Damasco.
A organização de direitos humanos acrescentou que há 2.781 mortos de identidade desconhecida.
2 milhões de sírios refugiam-se no exterior, muitas das vezes acolhidos no vizinho Líbano.
O Observatório não descartou que os números sejam superiores, já que não levou em conta no relatório os 21 mil prisioneiros em prisões do regime e em centros de detenção dos opositores.”
Exigem os cidadãos sírios algo idêntico ao que exigiam os portugueses de 74 (e já lá vão 40 anos!): “maior liberdade de imprensa, direitos humanos e nova legislação”. Ao invés das forças do regime que alegam estar a lutar contra “terroristas armados que visam desestabilizar o país” e que, portanto, não irão ceder a quaisquer exigências. Importa recordar, creio eu, como funcionam este tipo de ditadores: retrocedendo uns dez anos atrás, mais coisa menos coisa, Hafez al-Assad, pai de Bashar, teve no poder 30 anos (desta vez não escrevo os números por extenso pela razão simples de que eles têm de sobressair à vista das pessoas) e o seu filho, legítimo sucessor pensam alguns, está no poder há 10 anos. E como é genético de ditador, usam a repressão e a violência para abafar as revoltas, o que neste caso em particular – entenda-se: mais grave – leva Bashar al-Assad a recorrer às tropas para combater e travar o avanço dos rebeldes. Se morrem inocentes? Ele não quer saber. Direitos humanos? Não, obrigado.
Durante 30 anos, Hafez conseguiu a proeza de proibir a formação de qualquer partido de oposição e a participação de um partido da oposição numa eleição. E agora, com o filho, que mais não há senão desemprego elevadíssimo, condições de vida degradantes, liberdade frouxa, miséria? O país atravessou um estado de emergência criado em 1963 que perdurou até 2011, que são 48 anos da mais pura ditadura! Pois então, claro está a todos nós, que um país que tem um estado de emergência vigente durante um período de 48 anos dá tudo menos liberdade ao seu povo.
Continuará assim. O facto de estarem em Genebra, agora, com representantes não levará a nada num curto espaço de tempo. O governo quer ganhar tempo, matar e prender os que se atravessarem no caminho, e, acima de tudo, não vacilará para um governo transitório. Do outro lado, continuam a pedir uma intervenção e justiça, urgentemente.
Enquanto isso, morrem diariamente inocentes. Homens, mulheres. Crianças!
Álvaro Machado – 22:36 – 10-02-2014
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Meus senhores... É uma vergonha
Tiago Mesquita, no seu blogue Sem Reféns no site Expresso termina o seu texto de hoje do seguinte modo que transcrevo... Com uma pequena nota pessoal: Não é dirigido apenas aos políticos que compõem o atual Governo.
Meus senhores, o sacrifício maior exigido aos portugueses é mesmo termos de continuar a alimentar-vos. É uma vergonha.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
A Culpa por João Cardoso Rosas
Texto da autoria do professor universitário João Cardoso Rosas no Económico
Ao contrário do que por aí se diz, este Governo tem uma excelente estratégia de comunicação. Em pouco tempo, conseguiu impor um discurso que uma boa parte da sociedade e dos fazedores de opinião absorveu acriticamente. Como caracterizá-lo?
O seu tema central é a culpa. Tudo começou pela interiorização do chamado "discurso alemão" sobre a crise. De acordo com essa visão, os culpados pela crise do euro são, em exclusivo, os países da periferia. Por isso eles devem pagar pelos seus pecados, ainda que isso implique o sacrifício da racionalidade na própria solução da crise.
Passos Coelho e os seus amigos nunca desafiaram esta ideia, nunca pensaram a crise em termos estruturais e em função do sistema de incentivos perversos criados pelo euro. A narrativa alemã da culpa convinha-lhes porque ia ao encontro da sua própria narrativa de demonização do anterior primeiro-ministro. Para os alemães a culpa era nossa, dos portugueses no seu conjunto, mas a liderança política do Governo assumia de bom grado essa culpa porque podia, ao mesmo tempo, transferi-la para outrem.
Esta interiorização, seguida de transferência para um "bode expiatório", prosseguiu em todas as áreas da vida colectiva. Assim, para o primeiro-ministro os desempregados têm culpa do seu desemprego porque não saem da sua zona de conforto. Os beneficiários de RSI têm culpa da sua dependência porque não querem trabalhar. Os reformados têm culpa pelo descalabro orçamental porque recebem pensões pelas quais não descontaram. O Estado social tem de ser refundado porque, em suma, há muita gente a viver à custa dele e são esses os culpados.
Mas a estratégia de culpabilização acaba por abranger quase toda a sociedade. Os portugueses são culpados porque se endividaram, compraram casa e carro, quiseram comer bife em vez de batatas. Os trabalhadores por conta de outrem são especialmente culpados porque ficaram parados nos seus postos de trabalho, inamovíveis, difíceis de despedir. Os funcionários públicos são ainda mais culpados porque são eles os responsáveis pela despesa pública. Por isso é necessário tornar precário o trabalho em geral e o da função pública em particular, assim como diminuir salários e regalias.
Passos Coelho e os seus amigos, dentro e fora do Governo, vêem-se como uma espécie de sacrificadores dos "bodes expiatórios" nos quais eles próprios agruparam todos os pecados do passado. Daí terem um espírito de missão e uma linguagem moralista. O seu objectivo não é a reforma social, é a purificação. Os sacrifícios que aplicam, longe de incomodá-los, provocam neles a satisfação dos justos.
Quanto à compaixão, mesmo quando não se sente, encena-se. Basta uma mensagem no Facebook. Afinal de contas, o Pedro é um sentimental. Quem diria.
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Carta de despedida de Pedro Marques
Porque a JS Marco é MUITO + Que POLÍTICA, mas também porque política também é isto. Palavras que temos o dever de conhecer e sobre as quais vale a pena refletir.
Excelência,
Não me conhece, mas eu conheço-o e, por isso, espero que não se importe que lhe dê alguns dados biográficos. Chamo-me Pedro Miguel, tenho 22 anos, sou um recém-licenciado da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Nasci no dia 31 de Julho de 1990 na freguesia de Miragaia. Cresci em Alijó com os meus avós paternos, brinquei na rua e frequentava a creche da Vila. Outras vezes acompanhava a minha avó e o meu avô quando estes iam trabalhar para o Meiral, um terreno de árvores de fruto, vinha (como a maioria daquela zona), entre outros. Aprendi a dizer “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” quando me cruzava na rua com terceiros. Aprendi que a vida se conquista com trabalho e dedicação. Aprendi, ou melhor dizendo, ficou em mim a génesis da ideia de que o valor de um homem reside no poder e força das suas convicções, no trato que dá aos seus iguais, no respeito pelo que o rodeia.
Voltei para a cidade onde continuei o meu percurso: andei numa creche em Aldoar, freguesia do Porto e no Patronato de Santa Teresinha; frequentei a escola João de Deus durante os primeiros 4 anos de escolaridade, o Grande Colégio Universal até ao 10º ano e a Escola Secundária João Gonçalves Zarco nos dois anos de ensino secundário que restam. Em 2008 candidatei-me e fui aceite na Escola Superior de Enfermagem do Porto, como referi, tendo terminado o meu curso em 2012 com a classificação de Bom. Nunca reprovei nenhum ano. No ensino superior conclui todas as unidades curriculares sem “deixar nenhuma cadeira para trás” como se costuma dizer.
Durante estes 20 anos em que vivi no Grande Porto, cresci em tamanho, em sabedoria e em graça. Fui educado por uma freira, a irmã Celeste, da qual ainda me recordo de a ver tirar o véu e ficar surpreendido por ela ter cabelo; tive professores que me ensinaram a ver o mundo (nem todos bons, mas alguns dignos de serem apelidados de Professores, assim mesmo com P maiúsculo); tive catequistas que, mais do que religião, me ensinaram muito sobre amizade, amor, convivência, sobre a vida no geral; tive a minha família que me acompanhou e me fez; tive amigos que partilharam muito, alguns segredos, algumas loucuras próprias dos anos em flor; tive Praxe, aquilo que tanta polémica dá, não tendo uma única queixa da mesma, discutindo Praxe várias vezes com diversos professores e outras pessoas, e posso afirmar ter sido ela que me fez crescer muito, perceber muita coisa diferente, conviver com outras realidades, ter tirado da minha boca para poder oferecer um lanche a um colega que não tinha que comer nesse dia. Tudo isto me engrandeceu o espírito. E cresci, tornei-me um cidadão que, não sendo perfeito, luto pelas coisas em que eu acredito, persigo objetivos e almejo, como todos os demais, a felicidade, a presença de um propósito em existirmos. Sou exigente comigo mesmo, em ser cada vez melhor, em ter um lugar no mundo, poder dizer “eu existo, eu marquei o mundo com os meus atos”.
Pergunta agora o senhor por que razão estarei eu a contar-lhe isto. Eu respondo-lhe: quero despedir-me de si. Em menos de 48 horas estarei a embarcar para o Reino Unido numa viagem só de ida. É curioso, creio eu, porque a minha família (inclusive o meu pai) foi emigrante em França (onde ainda conservo parte da minha família) e agora também eu o sou. Os motivos são outros, claro, mas o objetivo é mesmo: trabalhar, ter dinheiro, ter um futuro. Lamento não poder dar ao meu país o que ele me deu. Junto comigo levo mais 24 pessoas de vários pontos do país, de várias escolas de Enfermagem. Somos dos melhores do mundo, sabia? E não somos reconhecidos, não somos contratados, não somos respeitados. O respeito foi uma das palavras que mais habituado cresci a ouvir. A par dessa também a responsabilidade pelos meus atos, o assumir da consequência, boa ou má (não me considero, volto a dizer, perfeito).
Esse assumir de uma consequência, a pro-atividade para fazer mais, o pensar, ter uma perspetiva sobre as coisas, é algo que falta em Portugal. Considero ridículas estas últimas semanas. Não entendo as manifestações que se fazem que não sejam pacíficas. Não sou a favor das multidões em protesto com caras tapadas (se estão lá, deem a cara pelo que lutam), daqueles que batem em polícias e afins. Mais, a culpa do país estar como está não é sua, nem dos sucessivos governos rosas e laranjas com um azul à mistura: a culpa é de todos. Porquê? Porque vivemos com uma Assembleia que pretende ser representativa, existindo, por isso, eleições. A culpa é nossa que vos pusemos nesse pódio onde não merecem estar. Contudo o povo cansou-se da ausência de alternativas, da austeridade, do desemprego, das taxas, dos impostos. E pedem um novo Abril. Para quê? O Abril somos nós, a liberdade é nossa. E é essa liberdade que nos permite sair à rua, que me permite escrever estas linhas. O que nós precisamos é que se recorde que Abril existiu para ser o povo quem “mais ordena”. E a precisarmos de algo, precisamos que nos seja relembrado as nossas funções, os nossos direitos, mas, sobretudo, principalmente, com muita ênfase, os nossos deveres.
Porém, irei partir. Dia 18 de Outubro levarei um cachecol de Portugal ao pescoço e uma bandeira na bagagem de mão. Levarei a Pátria para outra Pátria, levarei a excelência do que todas as pessoas me deram para outro país. Mostrarei o que sou, conquistarei mais. Mas não me esquecerei nunca do que deixei cá. Nunca. Deixo amigos, deixo a minha família. Como posso explicar à minha sobrinha que tem um ano que eu a amo, mas que não posso estar junto dela? Como posso justificar a minha ausência? Como posso dizer adeus aos meus avós, aos meus tios, ao meu pai? Eles criaram, fizeram-me um Homem. Sou sem dúvida um privilegiado. Ainda consigo ter dinheiro para emigrar, o que não é para todos. Sou educado, tenho objetivos, tenho valores. Sou um privilegiado.
E é por isso que lhe faço um último pedido. Por favor, não crie um imposto sobre as lágrimas e muito menos sobre a saudade. Permita-me chorar, odiar este país por minutos que sejam, por não me permitir viver no meu país, trabalhar no meu país, envelhecer no meu país. Permita-me sentir falta do cheiro a mar, do sol, da comida, dos campos da minha aldeia. Permita-me, sim? E verá que nos meus olhos haverá saudade e a esperança de um dia aqui voltar, voltar à minha terra. Voltarei com mágoa, mas sem ressentimentos, ao país que, lá bem no fundo, me expulsou dele mesmo.
Não pretendo que me responda, sinceramente. Sei que ser político obriga a ser politicamente correto, que me desejará boa sorte, felicidades. Prefiro ouvir isso de quem o diz com uma lágrima no coração, com o desejo ardente de que de facto essa sorte exista no meu caminho.
Cumprimentos,
Pedro Marques
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Política e os Portugueses 12
Episódios do dia-a-dia em que sinto no meu bolso (e no de todos) as políticas concretizadas no Hemiciclo (esse lugar que não raras vezes me parece distante):
I. O desemprego sobe. Tal como há dias aqui apontei, os 15,9% de taxa de desemprego são reflexo de uma política completamente orientada para a redução do défice orçamental sem que, para isso, se olhe a meios. Ironia da coisa: o défice e a dívida sobem. Os objetivos são gorados e os portugueses assistem a estimativas e tentativas falhadas... À sua custa! Mas não nos apoquentemos... Isto é apenas um cenário que se desenha, um contexto de oprtunidade que se ergue perante os nossos olhos! Olhemos para o mar de oportunidades que se abrem portanto... São muitos os desempregados, logo são muitas as oportunidades! Lógica simples: pieguiçes à parte, vamos aproveitar as oportunidades.
II. António Borges é um nome que, confesso, me assusta. Não intimida, apenas assusta. O seu intelecto, verdadeiramente superior, absolutamente galático, portentosamente estratosférico - sobre-humano em suma - merece ZERO palavras, visto que Daniel Oliveira já fez uso delas de forma tão primorosa. Nada a acrescentar quanto a isto, portanto. O que me assusta neste nome é a clara noção de que é a isto - sim ISTO - a que estamos entregues. É este senhor que manipula a (pouca) massa encefálica do nosso Primeiro-Ministro. Este é dos conselheiros mais influentes deste governo. Este ser é um dos principais estrategas da política atual. Esta á, sem dúvida, a criatura que mais repúdio me tem gerado nos tempos que correm. Estamos entregues à bicharada... Mas assim continueamos!
Vamos mudar isto ou quê?? Não é mais tempo de ficar no café a opinar ou no sofá a barafustar! Ação, intervenção e envolvimento é o que se exige!! Junta-te a nós... O Marco precisa, Portugal precisa de ti!
Porque, frequentemente, a política que ambiciono e projecto é muito distante da política praticada. Mas também porque a política é essencial para o quotidiano equilibrado de uma sociedade sustentável!!
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segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Esta história não acaba assim por Pedro Santos Guerreiro
É muito revelador que o PSD tenha sido lesto a convocar a Comissão Política para reagir às declarações de Paulo Portas de domingo e tenha ficado mudo e quedo ante as manifestações de Sábado. O medo usado pelo Governo foi devolvido pelo povo. Quando o país desparalisou, paralisou o Governo.
Os erros de Pedro Passos Coelho estão listados. É dele e só dele a responsabilidade da crise política que desaba. É dele e só dele o romper abrupto da estabilidade social que acumulava quinze meses de austeridade tolerada. Passos Coelho errou em tudo. No que decidiu, no que comunicou, no que não fez, até na atitude desleal demonstrada na sua última oportunidade. Na entrevista à RTP, os portugueses quiseram ouvi-lo – foi das entrevistas com mais audiência dos últimos anos. Mas o primeiro-ministro voltou a exibir insensibilidade e incoerência, ao culpar os portugueses pela recessão, tinham consumido menos do que era esperado. Como aqui escreveu Manuel Esteves, somos agora acusados de viver abaixo das nossas possibilidades. Como sintetizou Teresa de Sousa, Passos disse que, afinal, o Governo cumpriu, os portugueses não.
As manifestações de Sábado foram muito mais do que numerosas. A tensão e raiva que lá se sentia fizeram das manifestações do 12 de Março (há um ano e meio) uma caminhada pela paz e amor. Nestas, pedia-se justiça, demissões, convulsões. Cada pessoa a quem se perguntava "por que razão está aqui?" respondia com o seu próprio drama. Muitas de lágrimas dos olhos. E agora?
"E agora?" é uma das perguntas que os cépticos das manifestações, e alguns amnésicos sobre o que é a sociedade, costumam perguntar no fim. Como se uma manifestação tivesse apenas dois propósitos: enrolar as bandeiras ou usá-las para partir montras. Errado. Os manifestantes é que perguntam, exigem, "e agora?". É Passos Coelho quem tem agora de responder.
O Governo responde com ameaça de cisão. Paulo Portas respondeu com cinismo a Passos Coelho, dando sequência ao processo de autodestruição da coligação. O pior cenário que temos pela frente é o de eleições, mas deixar apodrecer um Governo de traidores é como usar uma máscara de farinha ao vento. É altura de Cavaco Silva intervir. E resolver.
Passos Coelho já perdeu esta luta porque já perdeu todas. A própria "chamada" de Cavaco Silva a Vítor Gaspar ao Conselho de Estado, tornada pública, é um atestado de menoridade e um insulto ao primeiro-ministro. Cavaco chamou "quem sabe" e quem sabe é Gaspar. É esta a mensagem.
Da manifestação de 15 de Setembro à apresentação da proposta do Orçamento do Estado decorrerá precisamente um mês. Já não é possível reconstituir o que havia colando os cacos, mas é preciso reerguer algo. O aumento da taxa social única para os trabalhadores tem de cair. Até porque, como disse ontem Maria João Rodrigues, há alternativas. Mesmo sendo alternativas de austeridade.
Este é o principal dano provocado pelo Governo: ter destruído a disponibilidade para a dor que existia, porque vigorava o sentimento de que este era um caminho duro mas de injustiça justamente distribuída. Esse selo foi quebrado, irremediavelmente. Como perguntou José Gomes Ferreira, como vão ser agora aceites as próximas medidas de austeridade, que obviamente surgirão daqui até 15 de Outubro? Porque disso não nos livramos. Depois das medidas extraordinárias deste ano (que incluem a concessão da ANA, em vez de privatização), há um ror de austeridade para 2013 que não poderemos evitar. Os cortes na Função Pública e nos pensionistas, os impostos para trabalhadores.
Na delirante mensagem que deixou vai para dez dias no Facebook, o amigo, cidadão e pai Pedro escreveu uma frase certa: "Esta história não acaba assim". Pois não. Acabará de outra maneira. Acaba mal para Passos Coelho. Mas não pode acabar mal para o País.
in Jornal de Negócios
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Juan José Millás - O cano de uma pistola pelo cu
Porque este senhor, Juan José Millás, pôs as coisas, na sua coluna no jornal El País, como poucas pessoas são capazes de as por: cruas, incisivas e duras.
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
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terça-feira, 26 de junho de 2012
Pequenos Gozos d'O Jumento
Transcrevo aqui um post trágico-cómico repleto de ironia e sagacidade publicado no blogue O Jumento que pode, muito bem, refletir a perspetiva de muitos leitores.
Financeiramente capados pelo Gaspar, azar que sucedeu a todos os funcionários públicos excepto os que trabalham no off-shore do Banco de Portugal e a todos os pensionistas excepto os que beneficiam do único fundo de pensão de bancário que não foi nacionalizado pelo Gaspar, precisamente e por mera coincidência o do já referido off-shore, resta-nos ter pequenos gozos.
Dá-me um imenso gozo ver um Paulo Portas extasiado de felicidade ao lado da artista Joana Vasconcelos com aquele ar de quem está numa das nossas feiras mas sem aqueles trajes de caçador sentado. Paulo Portas sabe que muitos portugueses conhecem os trabalhos de Joana Vasconcelos graças à exposição da Colecção Berardo exposta no CCB, uma colecção odiada por este governo.
Dá-me um imenso gozo ver muita gente do governo a formar fila para aparecer na Embraer, um projecto dos tempos de José Sócrates. Dá-me gozo ver que muitos dos que querem chamar a si os louros pelo projecto foram os que no passado se divertiram a gozar com o cluster da aviação em pleno Alentejo, o mesmo Alentejo onde os governos do PSD não investiram um tostão porque não tinham votos na região.
Dá-me gozo ver o Passos Coelho elogiar a aposta portuguesa nas energias renováveis a propósito de uma grande conferência internacional. É o mesmo Passos Coelho que veio para o governo apoiado em gente que odiava as renováveis, gentes que só mudou opinião quando foram comprados pela EDP, gente que escorraçou a Nissan de Portugal.
Dá-me gozo ver os que no passado tinham um orgasmo sempre que os juros da dívida portuguesa subiam estarem agora tão atentos aos mercados financeiros como estão quando a selecção portuguesa joga no Europeu. Só que estão a acompanhar os juros da dívida espanhola e quando roem as unhas não é com receio da equipa de Paulo Bento perder mas sim com medo de que os juros da dívida espanhola voltem a subir.
Sinto gozo quando um Passos Coelho que passou meses a afundar a imagem da Grécia numa tentativa desesperada de se apresentar na Europa como um aluno graxista que pede à professora Merkel para lhe bater mais, anda agora preocupado com a situação financeira de Espanha onde o seu amigo Rajoy está a fazer a Portugal o mesmo que ele fez à Grécia. É um gozo ver o mesmo Passos que forçou um pedido de ajuda internacional rezar agora para que a Espanha não o faça.
É um goz ver Passos, Coelho mais os seus ministros e os rapazolas da troika chamarem a si os louros pelo aumento das exportações quando se sabe que ao contrário do que estes aldrabões dizem esse crescimento das exportações é anterior ao actual governo e a qualquer uma das reformas previstas no memorando ou impostas aos trabalhadores pela CIP e pelo sô Álvaro.
Dá-me gozo ver alguns grupos profissionais que usaram todos os meios e poderes de que dispunham para derrubar um governo de que não gostavam e agora estarem farto de comer e ficar calados, professores aceitam qualquer avaliação, magistrados a fazerem contas à vida e jornalistas a comerem do Relvas.
Dá gozo ver o Jerónimo de Sousa que tanto se bateu para derrubar Sócrates e levar Passos Coelho e Paulo Portas para o poder vir agora armado em líder do proletariado a apresentar moções de censura exigindo que o PS vote a favor. Um dia destes ainda vamos assistir a muito do que já se viu, como as manifestações espontâneas convocadas por telemóvel, as esperas ao primeiro-ministro e outras práticas democráticas do Mário Nogueira.
Dá gozo ver os banqueiros que durante tantos anos foram exibidos como o modelo de sucesso das reformas liberais e grandes defensores das vantagens do liberalismo virem agora chular o dinheiro dos contribuintes para reporem capital que destruiram com negócios obscuros.
Dá gozo ver um liberal de mais de 70 anos, ministro do Cavaquismo e contador de pentelhos andar a lamber as botas aos comunistas chineses a troco de uma gorjeta.
Infelizmente são estes os pequenos gozos que nos restam, o que vale é que são cada vez mais as oportunidades de gozar.
É um goz ver Passos, Coelho mais os seus ministros e os rapazolas da troika chamarem a si os louros pelo aumento das exportações quando se sabe que ao contrário do que estes aldrabões dizem esse crescimento das exportações é anterior ao actual governo e a qualquer uma das reformas previstas no memorando ou impostas aos trabalhadores pela CIP e pelo sô Álvaro.
Dá-me gozo ver alguns grupos profissionais que usaram todos os meios e poderes de que dispunham para derrubar um governo de que não gostavam e agora estarem farto de comer e ficar calados, professores aceitam qualquer avaliação, magistrados a fazerem contas à vida e jornalistas a comerem do Relvas.
Dá gozo ver o Jerónimo de Sousa que tanto se bateu para derrubar Sócrates e levar Passos Coelho e Paulo Portas para o poder vir agora armado em líder do proletariado a apresentar moções de censura exigindo que o PS vote a favor. Um dia destes ainda vamos assistir a muito do que já se viu, como as manifestações espontâneas convocadas por telemóvel, as esperas ao primeiro-ministro e outras práticas democráticas do Mário Nogueira.
Dá gozo ver os banqueiros que durante tantos anos foram exibidos como o modelo de sucesso das reformas liberais e grandes defensores das vantagens do liberalismo virem agora chular o dinheiro dos contribuintes para reporem capital que destruiram com negócios obscuros.
Dá gozo ver um liberal de mais de 70 anos, ministro do Cavaquismo e contador de pentelhos andar a lamber as botas aos comunistas chineses a troco de uma gorjeta.
Infelizmente são estes os pequenos gozos que nos restam, o que vale é que são cada vez mais as oportunidades de gozar.
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quarta-feira, 23 de maio de 2012
Sugestão: Debtocracy
Queria deixar aqui uma sugestão... Por 2 motivos (simples):
1. Porque posso (tão só e apenas)!
2. Porque o Pedro Leal tem alimentado aqui um hábito muito saudável de publicação curtas metragens de pertinência indiscutível!
Não sei se já viram o filme Debtocracy, algo como Dividocracia! Um filme feito, segundo os autores, pelo público acerca da crise grega. O filme é já do ano de 2011, não acabou de sair nem sequer acabei de o ver! Lembrei-me, nesta fase em que a crise grega agudiza de forma severa... Talvez seja o ponto de viragem para toda a Europa e não apenas o fundo do poço para os gregos.
Este filme alimentou muitas sessões de cinema ao ar livre em praças públicas repletas, desde Atenas até Madrid. Por cá, o Bloco de Esquerda levou a cabo também diversas sessões de visionamento. A meu ver, este filme serve, acima de tudo, para apurar o sentido crítico relativamente à situação grega. Marginalizado pelos media de massas e, não obstante isso, visto por milhões de pessoas, Debtocracy mostra o outro lado da crise grega que as notícias que nos chegam teimam em omitir. Como todos os filmes mais radicais, é necessário espírito crítico para assimilar aquilo que interessa ou, simplesmente, saber aquilo que interessa!
Mas, enfim... Palavras em demasia já! Caso decida aceitar a minha sugestão... Boa sessão!
OBS: Esta versão tem apenas legendas em inglês!
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Imigrar ou Emigrar?
As notícias falam já nas 6 casas decimais para o número de "expatriados", no "Apocalipse" da nova geração, na certeza de que serão ultrapassados os números da década de 70 e 80. Será? Para onde?
Para mim talvez, certamente que sim. Acredito nos números e nos sítios do costume: França, Luxemburgo, Suíça, Espanha, Brasil e Angola.
Mas afinal que milhares de pessoas são estas e estarão a emigrar ou será imigrar? É tudo uma questão de perspectiva, começando por este novo padrão de pessoas que abandonam, perdão, que se ausentam, do país. Hoje, uma grande percentagem são jovens altamente qualificados, com ou sem experiência, que pretendem emigrar para poderem imigrar. Sim, imigrar. Quem não quer nos dias de hoje dar de "frosques" (out) de Portugal e dar entrada (in) no apelativo, charmoso, cor-de-rosa bling-bling conjunto de países supracitados? Todos dizem que sim.
Quem já foi é um sortudo quem “está para ir” tem sorte, quem quer ir mas não consegue é o comum coitado, ou não fossemos nós o povo da saudade, do enfado que é nosso Fado, agora Património Mundial.
Mas nem tudo são rosas. Para França está difícil pois os €€ começam a faltar, no Luxemburgo já somos um terço dos desempregados, a Suíça sofre hoje da desvalorização monetária, €spanha mais parece Portugal, Brasil e Angola são países longínquos, considerados inseguros e sem o charme europeu.
Queres mesmo emigrar ou preferes imigrar?
Melhor ainda, preferes ir e ficar ou ir para voltar?
Não será fácil conseguir, à semelhança dos conhecidos pais, tios e avós, conciliar uma vida fora na expectativa de amealhar e voltar. O que parecia impossível acontecer aos filhos da terra aconteceu mesmo. O ciclo voltou-se a fechar. E será que não irá se repetir?
Para nós naturais do Marco, aquele que é/foi um dos concelhos com maior número de trabalhadores em Espanha do país, é algo normal sair ou ver a sair da "terrinha". Sempre foi assim porque não continuará a ser? Ao longo dos anos foi sendo enraizada a cultura de bem receber os que estão fora, muito à semelhança do que vimos por essas terras do "fundo" interior de Portugal. Mas porque é que tem de ser assim?
São hoje poucos os que imaginam colocar o Marco como primeiro local de emprego/trabalho, a falta de tecido empresarial é gritante, a indústria é inexistente e primária e o sector terciário sem expressão.
Porque não foram, a seu tempo, dados condições para que estruturas de emprego fossem criadas?
Onde, nos últimos 10 anos foram criadas iniciativas de estabelecimento empresas de renome?
Porque não existe há 10 anos trabalho no Marco? Ou será da crise de “agora”?
E se agora pensar que Marco de Canaveses faz parte de Portugal? Eish… Estaremos perdidos? No Marco ou em Portugal?
Estas são algumas das 1milliondollarquestions para muitos que como eu dão os primeiros passos no mundo do trabalho.
28-12-2011
Vicente Moreira
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Islândia, porque não?
Há já meses que ando a tentar acompanhar a recuperação económica da Islândia! Procuro, leio (em Inglês, Espanhol ou Francês porque Português está calor!) e volto a procurar! A informação que tenho conseguido obter carece de fontes oficiais, pelo que procuro mais um pouco de forma a corroborar as ideias e os factos que vão surgindo. É surpreendetemente difícil fazê-lo. Será que o capitalismo compra o silêncio da informação a uma escala tão global? Que ignorante e ingénuo da minha parte :) Claro que compra! Veja-se o destaque sufocante dado à Grécia, à Irlanda, à Espanha ou à Itália! Islândia nem vê-la! Porém o caminho Islandês é completamente diferente... E os resultados desse mesmo caminho estão nos antípodas dos verificados na Grécia!
Seja como for... Vou tentar neste espaço transpor alguns dos acontecimentos mais marcantes do proceso de consolidação financeira da Islândia! Penso ser um processo que merece um maior destaque em toda a Europa... Mais ainda no nosso Portugal!
Urge a necessidade de criar uma consciência crítica relativamente aos acontecimentos que nos envolvem! Não fomentar o "bota-abaixismo" ou o protesto sem fundamento, mas sim, o juízo crítico, o querer saber mais, o querer saber porquê ou porque não de outra forma!
Muito em breve deixo aqui mais novidades!
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