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sábado, 23 de maio de 2015

Restaurante social no rés-do-chão da Igreja

Envolvemo-nos num silêncio profundo, submissos ao fundamento da vida, e deixámos o orgulho e a essência dos nossos sonhos num pequeno baú, imperceptível à grande maioria, como se fossemos enterrando lentamente o nosso próprio corpo.

Portugal, país que vi desde que abri os olhos e país que provavelmente irei ver até ao último suspiro, deixou-me agora um estilo de vida bem diferente daquele que em tempos havia encontrado no livro de Herberto Helder. Parece-me claro: tenho de admitir a vergonha, o embaraçoso destino fatalista que se me ergueu, a impureza, o marginalismo de ser pobre, de não ter dinheiro para pôr pão ou restos de comida à mesa.

O meu país - e os que indecentemente o fazem seu sem o sentir na verdade – tornou-me num intolerado, num homem de extremos, num vadio que se humilha todas as santas noites quando recorre àquela exígua sala do restaurante social, no rés-do-chão da Igreja. Como eu há milhares. Milhares que me pesam mais do que o eu estar ali comendo que nem um desvairado. Sinto-lhes a vergonha a subir no sangue, o coração numa batida tão veloz que parece iminente um ataque, e o ambiente pesado que os acerca é tão obscuro como quando nos sentimos abandonados ou esquecidos por alguém que amámos.

Os rostos lívidos diante dos meus olhos doem só de ver. As histórias que todas as noites oiço do vizinho que está desempregado há quatro anos, com os seus dois filhotes pequenitos e com a mulher internada há um mês deixam-me de rastos.

Eu, que não passo de um miserável, de um pobre sem rumo, todas as noites morro um pouco mais por dentro; todas as noites levo horas desperto porque tu, Portugal, não nos levaste só dinheiro nem nos privaste somente do trabalho ou de caprichos que eventualmente havíamos tido. Privaste-nos, isso sim, da nossa dignidade, do nosso orgulho, dos nossos sonhos que agora se encontram num baú pequeno sem possível abertura.

Portugal, não me humilhes mais, por favor.

Álvaro Machado - 21:48 - 23-05-2015

domingo, 14 de outubro de 2012

Sendo pobre



Os pobres são as frontes humildes e magníficas que qualquer um de nós pode contemplar. São eles a supremacia homogénea que dá valor às coisas, mesmo não tendo. Valorizam as coisas belas, como o campo e a natureza, e fazem delas suas também. Enaltecem o ar, a água, o fogo, a terra, ou seja, os quatro elementos; mas, também, bradam aos Deuses por serem capazes de escutar a forma sublime do vento, acompanhar o belo cântico dos rouxinóis sobre os ramos, fitar a formosura do rio e da sua cristalina cor; e vão, assim, estando constantemente interligados com a primazia dos elementos básicos de toda a vida...

Ah! Como eu venero quem seja pobre, porventura por me achar um, e ver neles toda a razão sendo mais pura e básica e verdadeira!
Quem possui um génio criativo não quer mais do que isso. Os que possuem grande quantidade de riqueza tornam-se limitados durante a longevidade efémera do que são. Não é verdade, pois, que o nobre seja mais merecedor da arte do que o operário. O rico, de tão rico que é, recusa-se, no imediato, a compor grandes obras ou a escrever um belo trecho poético; apenas quer ser possuidor de meio mundo, comprando obras de arte sem as interpretar. Se ele quer ser assim, ignorante, que seja!

É tão puro e cruel ao mesmo tempo por ser verdade! O pobre, esse sim génio criativo, é quem compõe toda a arte do mundo e, também, é o pobre verdadeiro merecedor de ser chamado de artista!

Álvaro Machado
- 20:30 - 14-10-2012