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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Álvaro... Machado: Passagem Obrigatória


Um raio que parta o quotidiano e a lei que trace o limite para homem!
Sejamos quem não tem limite, em sonhos ou em acções!
Um raio que parta! Que se dane as etiquetas e as conversas de café!
Andem às avessas, gritem como doidos, soltem o génio que há em vós!

in Quotidiano, Álvaro Machado

Há dias um caro amigo meu (e vosso, para muitos de vocês) escreveu de forma simples e humilde algo como: 400 publicações e 50 000 visitas, algo está a ser construído. Referia-se, como é óbvio, ao seu blogue e às suas publicações, maioritariamente poesia, pontuada por alguma prosa. Aconselho vivamente a uma visita a este espaço pessoal online deste jovem marcoense que poderá, um dia, colocar no mapa nacional o município marcoense... Mas pelas melhores razões, desta feita.

Poesia Álvaro

Pretendo com esta publicação fazer uma singela referência a este espaço onde podem beber um pouco de poesia, conhecer melhor a escritaria do Álvaro e, acima de tudo, mergulhar numa névoa de pensamentos e sentimentos que nos fazem perder pelos recônditos meandros da mente humana. O Álvaro não tem receio, receio das nossas opiniões e julgamentos. O Álvaro não tem receio de demonstrar o seu "eu" e de o partilhar com quem o acompanha. O Álvaro não tem receio de transparecer o que o importuna nem o que o espicaça... O Álvaro não tem receio de ser quem é e de o demonstrar perante tantos outros que tanto fazem para o esconder.
Álvaro, o tempo é, como muitos dizem, o melhor professor... Verás que este te ajudará a aprimorar os sentidos e o intelecto, deixa que ele te ensine, poderás dele abstrair valiosas lições. Bem sei que isto não se aplica tanto a ti, que tanto e tão bem escreves com tantos invernos contados, porém o tempo será teu aliado... E quando este se tiver aliado de forma irreversível, verás que não terás mãos a medir para tantas palavras prontas a escorrer de ti. Nem o teu homónimo, heterónimo de outrem  nasceu com as palavras escorreitas, munido de infindáveis recursos estilísticos... Nasceu, porventura, com  nada mais nem menos que tu e, isso, não tenho problemas em afirma-lo, sei que o tens e dificilmente o perderás: o génio!
Agora, sem mais rodeios e pseudo-tentativas de bem escrever, deixo a minha sugestão... Estou certo de que irão gostar, tal como o Álvaro gostará de vos ter por lá.
Visitem...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Poema quase Epitáfio, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje tem como autor a poetisa Luísa Neto Jorge.
Intitulado Poema quase Epitáfio, o poema que se segue tem um carácter marcadamente Surrealista, sendo um dos maiores nomes da Poesia 61, breve revista composta por 5 autores do Sul do país.
Luísa Neto Jorge foi tradutora de grandes nomes da Literatura Universal como Verlaine, Goethe, Apollinaire, entre outros.

 
Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco
Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos
Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)
O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões
- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sou nómada e basta-me, 25 dias, 25 poemas





O poema de hoje é da autoria de Casimiro de Brito.
Este poema, recolhido de uma bela antologia, demonstra uma passividade e indiferença perante a realidade.
Todavia, é nessa indiferença que reside a ironia.
A ironia reside na luta.
A luta reside na esperança.
A Esperança brota o Futuro.,


Sou nómada e basta-me
Beber a água que vem da montanha
E olhar a mica do céu onde se reflectem
As mutações da Coisa — o pó
Que nela pousa. A teia do conhecimento
Está podre e não vou
Deitar-me nela. Escrevo porque sou um arco
Que vai acumulando alguns restos
Alguma dor algum vento perfumado
E subitamente dispara. Cinza. Palavras
Que não têm deuses nem brilho nem nada.

domingo, 22 de abril de 2012

Pátria Lugar de Exílio, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Daniel Filipe, intitulado Pátria Lugar de Exílio.
Daniel Filipe nasceu em Cabo Verde mas cedo veio para Lisboa onde terminou os seus estudos.
Foi colaborador em revistas como Seara Nova e Távola Redonda.
Combateu o regime salazarista e foi várias vezes preso pela PIDE.
O poema seguinte mostra-nos um sentimento de claustrofobia política e existencial.
Neste ano de 1962não como Hazim Hikmet no avião de pedra 
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente 

em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde
Neste ano de 1962 
encostado a uma esquina da estação do Rossio 
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude 
e de enjôo crescente 
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos







Aqui mesmo envolto na placidez burguesa higienicamente limpo e com os papéis em ordem vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria




sábado, 21 de abril de 2012

Os dias do trigo, 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje hoje é da autoria de José Manuel Mendes e encontra-se na obra Os Dias de Trigo.
Nascido em Luanda, cursado em Coimbra, este escritor e actual professor de Comunicação Social na Universidade do Minho esteve sempre atento à realidade do seu país, quer através das críticas, quer através da sua pena.
Com apenas 15 anos publicou o seu primeiro livro de poesia.
Neste poema encontramos um eu lírico preso à terra e aos tesouros que ela esconde. Terra essa que é o Alentejo, mas que pode ser visto como todo Portugal.
Não apagarão nosso rastro
nas areias do tempo

fertéis são as terras onde lavramos
os sinos
da manhã

não calarão o brado solidário
alentejos da esperança
país da coragem
mineral

podem matar-nos

não provarão o mel
dos rios

serão cinzas ao findar
da noite





sexta-feira, 20 de abril de 2012

Os Poemas Possíveis, 25 dias, 25 poemas





José Saramago.
Eis o autor do poema de hoje.
Escritor que só o seu nome carrega toda uma vasta, complexa e maravilhosa Literatura, Literatura essa que é um universo imenso.
Prémio Camões em 1995 (maior prémio Literário nacional); Prémio Nobel da Literatura em 1998, autor de inúmeros romances, ensaísta, dramaturgo, jornalista, serralheiro mecânico, entre tantas outras coisas que fez, foi, faz e ainda é.
José Saramago era membro do Partido Comunista, mas é importante notar que o seu primeiro partido foi sempre a Justiça, a Igualdade, no fundo, a Humanidade.
José Saramago é o exemplo de como a Arte é uma forma de engrandecer a Política, mas a Política não se deve servir da Arte como mero objecto. A Arte deve e tem de ser o espelho de tudo aquilo que queremos que seja o Bom, o Belo e o Justo.
Só uma grande consciência é capaz de ter horizontes sem limites, como era o seu caso.
O poema de hoje insere-se na sua obra Os Poemas Possíveis, publicada em 1966.
Pequeno em palavras é o poema que vos apresentamos.
Mas como as palavras escondem sempre outras palavras, pois a Poesia é sempre outra coisa para além do que se vê, a riqueza deste poema é incalculável.
Enfim, tudo o que se possa dizer sobre este Homem será sempre pouco.
José Saramago é um dos pilares inalianáveis da Literatura Portuguesa.
Afinal, o que é a Vida sem Arte?
Bem-haja!


Só direi
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Mar, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Francisco José Tenreiro.

Com efeito, este poeta nasceu em São Tomé e Príncipe e lá faleceu ainda bastante jovem.

Apesar de não ser um poeta muito conhecido entre os portugueses, Francisco José Tenreiro exaltou a sua raça, a raça dos Negros, o povo do exótico, dos frutos tropicais, do calor e do mar.

Não nos podemos esquecer que este poeta viveu num período em que nos Estados Unidos e na França os negros se começava a lutar pelos direitos dos negros, promovendo a Igualdade e a Justiça.

Assim, o poema que vos deixamos tem como temática não só o mar, mas também o branco e a sua presença (nefasta) em África , assim como breves e subtis referências à Guerra Colonial que prevaleceu por mais de 12 anos, daí a crítica sujacente a Salazar e ao Estado Novo.

Enfim, é um poeta da negritude, mas também um poeta da paz.

É certo que não é de naturalidade portuguesa, mas os temas presentes no poema e a língua lusa que ele veleja com mestria não o fazem da mesma pátria que a nossa?


A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
-Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!...


Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!


O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Para Ti, Amigo Antero




"A Arte é a coisa santa da Humanidade"

Foi assim que eu conheci o meu amigo Antero de Quental, numa certa tarde ao crepúsculo, ao pé da escadaria da Sé Nova, enquanto ele discursava para um grupo de estudantes que traçava a capa ao vento.

Era alto, de estatura forte, o cabelo e a barba bastante ruiva, o que demonstrava uma certa ascendência britânica e lhe dava um ar quase aristocrático.

Como era bom ouvi-lo a falar das ideias novas que chegavam a Portugal através do vapor que havia poucos anos rasgava a barbárie dura da Península!

Eram ideias maravilhosas! Umas falavam de Hegel e Compte, enquanto outras, ainda mais fantásticas, eram as ideias de um tal senhor Proudhon que mantinha uma acesa discussão com um tal de Karl Marx, uma discussão em que se falava de economia, de um novo paradigma económico e político.

Socialismo.Socialismo. Socialismo.

Era uma palavra nova para os nossos lábios e para os nossos ouvidos.

Socialismo.

O que sabíamos do Socialismo era o que Antero, esse "Génio que era um Santo" como Eça de Queiroz mais tarde o cognominou, lia e sorvia e pensava sobre Proudhon.

Falava-nos do Socialismo Utópico, da necessidade de haver maior repartição da riqueza, da instrução das classes mais desfavorecidas, pois o conhecimento levaria ao desenvolvimento dos pobres. E aí entrava a Arte, a Poesia, a Musa predilecta do meu amigo Antero.

Depois, líamos como discípulos os livros que ele nos emprestava, discutíamos o Socialismo, falávamos do Socialismo. Éramos Socialistas Utópicos!

E a Utopia continuou pelos anos que passaram.

Mais tarde, o meu amigo Antero reuniu-se em segredo, num pequeno barco sobre o rio Tejo, com Socialistas espanhóis, logo após a instauração da breve 1ª República Espanhola, de modo a criar um Federação Ibérica, regida por ideais Socialistas, não republicanos.

O meu amigo Antero era um Socialista e um Romântico, nunca aceitou o Republicanismo por este estar imbuído em ideais positivistas e cientificistas, ideias que Teófilo de Braga defendia e preconizava. Não admirava que o meu amigo Antero cedo se separasse de Teófilo...

Como Romântico que era, como filósofo que era, como poeta que era, o meu amigo Antero tinha constantes crises por confrontar em si o poeta e o filósofo, o romântico e o político.

A República Espanhola sucumbe rapidamente e todos as ideias de Federativismo do meu amigo caem por terra.

Mais tarde, o Ultimatum inglês volta a dar vida ao meu amigo Antero que tinha ido para Paris poucos anos antes da Comuna de 1871, e lá trabalhara como tipógrafo para viver como um operário, um pobre. Era o ano de 1868.

Mas o oposição portuguesa que se levanta face ao Ultimatum está embebida de ideias republicanos, e o meu amigo depressa abandona o cargo que tinha de dirigir palestras e esclarecimentos para o povo em geral, de modo a que este se revolte contra a monarquia.

Tudo tinha feito pelo seu país. Aquelas Conferências do Casino Lisbonense de 1871, a que eu assisti piamente como um discípulo escutanto o seu mestre diante o profano altar do Conhecimento e do progresso.

Mas as Conferências são interrompidas...

Antero partiu para os Açores em Junho de 91 e de lá nunca mais voltou...

Era o dia 11 de Setembro desse mesmo ano dos finais daquele século XIX que tinha sido imenso.

Perto do Convento da Esperança havia um banquinho daqueles de jardim, no céu voavam pássaros e as nuvens sobrevoavam sobre as asas desses pássaros que faziam voos injustos.

O meu amigo tira uma pistola do bolso, dá dois tiros na cabeça e cai para o lado, morrendo minutos mais tarde em agonia.

O meu país empobreceu porque o meu amigo deixou-nos cedo de mais.

Mas o meu país também ganhou tanto com as suas palavras, com a sua Poesia, com a sua Filosofia, com o seu Socialismo.

Antero fez da sua vida uma obra de Arte inacabada, porque era um génio e um santo.

Obra de Arte inacabada que se completa com as suas Odes Modernas , com Tendências Gerais da Filosofia da segunda metade do Século XIX, que foi a sua obra redentora, onde há uma presença forte do Socialismo, ao qual chamo de Socialismo Anteriano, como muitas outras obras que ele pensou e escreveu.

O meu amigo Antero foi um dos pais do Socialismo português, foi dos primeiros seguidores do Socialismo Utópico em terras lusas.

O Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo. A Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.



Obrigado, amigo Antero.



Notícias do Bloqueio, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje, intitulado Notícias do Bloqueio, é da autoria de Egito Gonçalves.
Este poeta foi escritor, editor e tradutor, sendo que a sua obra está traduzida em várias línguas, tendo em conta que ganhou vários prémios a nível nacional e internacional.
Este poema demonstra o carácter revolucionário e empenhado da escrita de Egito Gonçalves, homem que divulgou a cultura literária do seu país além-fronteiras.

Bem-Haja.

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento

Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva

e a esperança reproduz-se

terça-feira, 17 de abril de 2012

Em todas as ruas te encontro, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje é da autoria de um dos maiores escritores portugueses do século XX - Jorge de Sena.
Intitulado Em todas as ruas te encontro, este poema de temática sensual e erótica foi um dos muitos escritos propositadamente para abalar o ideário de ordem do Estado Novo, sendo dos poemas preferidos de Salazar no que diz respeito à sua eliminação do mundo literário.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura