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domingo, 26 de abril de 2015

O 25 de Abril de outrora

O povo que agora consente outrora disse não a quem os governava, conspirou contra o poder e ansiou derrubá-lo. Dias e noites passadas a vislumbrar a queda do regime, a querer saborear a liberdade por fim.
Muito abdicaram estes homens para o conseguir, privados foram da sua vida, sujeitados foram a repressão violenta na tentativa de os diminuir enquanto homens íntegros.

A verdade é que isso nunca os demoveu. Privá-los das suas famílias e da sua liberdade não os fizera, nunca, jamais, abdicarem da crença de um país melhor, antifascista, e plenamente democrático.
A música que cedo entoava a saída à rua da revolução, com o «E Depois do Adeus» de Paulo Carvalho, até à confirmação de toda a operação com a «Grandola Vila Morena» de Zeca Afonso, fizeram os portugueses vibrar com a determinação de todos os revoltosos e com a permanente incerteza quanto ao desfecho do desenrolar dos acontecimentos.

Hoje, por força da nossa inconsciência, esquecemo-nos que muito do que temos é fruto de homens corajosos como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá-Carneiro, Manuel Alegre, e por aí fora, que recusaram sempre colaborar com Estado Novo e nunca se amedrontaram face à pressão que a PIDE lhes fizera – praticamente não faziam outra coisa senão estarem presos, sendo altamente conspiradores contra o regime salazarista, e quando não era atrás das grades seriam alvos de uma perseguição devastadora às suas casas, às suas relações pessoais, ao seu trabalho, tendo como ponto de partida a censura…

Ainda assim, não lhes fizera a prisão e os exílios frequentes aquilo a que hoje em dia comummente estamos habituados: a um povo calado que consente a fome e a miséria e oportunismo político. Sejamos outra vez 25 de Abril, sejamos outra vez sonhadores!

Álvaro Machado - 19:11 - 25-05-2015

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Política, Religião e Liberdade


Como dirigente da Juventude Socialista e como coordenador da Pastoral Juvenil da Vigararia do Marco de Canaveses, considero-me conhecedor das diferenças que separam a Política da Religião. São dois caminhos distintos, com preceitos próprios mas que estão inevitavelmente ligados. 

Tanto um como o outro são capazes de arrastar multidões, conferindo um enorme poder a quem os lidera. Um poder tantas vezes descurado ao ponto de colocar em causa alguns dos direitos que considero fundamentais. 

Durante anos, a política e a religião caminharam juntos como um só fazendo com que as opções religiosas, sexuais, diferenças de etnias, etc. servissem como desculpa para diferenciar os cidadãos. Não tenho dúvidas que a separação destes dois conceitos foi uma das maiores conquistas democráticas no nosso tempo. “Somos diversos nas nossas opções de vida, mas devemos ser iguais nos nossos direitos como cidadãos” 

É por isso que, apesar de pertencer a uma religião tantas vezes apelidada de fechada e inexcedível, não sinto qualquer divergência em defender questões tão controversas como o casamento gay, o aborto ou outro qualquer assunto que tenha como objectivo o de habilitar cada um de nós dos mesmos direitos e competências para escolher qual o caminho a seguir. Porque é disso que verdadeiramente se trata: dar a opção a cada um de nós para escolher a sua liberdade sem com isso comprometer a liberdade do nosso próximo. 

Este conceito precisa de ser valorizado… ou melhor, precisa de ser aplicado! É necessário reflectir sobre o que realmente é importante e deixar cair todos os preconceitos que nos prendem no caminho para a evolução social. É por isso que a Igreja e o Estado têm um papel fundamental na defesa desta concepção. Apenas através de um perfeito equilíbrio, poderemos afirmar a nossa liberdade. 

A separação do Estado e da Igreja deve por isso ser absoluta. Defendo um estado laico, não religioso, capaz de oferecer educação, serviços médicos e acção social sem estabelecer diferenças pelas opções de cada um. A Igreja não deverá impor as suas concepções. A religião é algo que se busca. É um caminho que deve ser seguido por convicção. Só assim faz sentido. 

Sou socialista e católico, porém, a minha liberdade transcende estes dois conceitos. Sou antes um homem hábil para evitar extremismos e para compreender as diferenças. Um homem, como tantos outros, capaz de falar abertamente sobre o que nos separa e com vontade de encurtar distâncias.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O 25 de Abril, Ontem e Hoje, por Elísio Estanque


Este texto não foi publicado no dia pré-anunciado - 23 de Abril. Infelizmente, por impossibilidade do autor nessa data, ficou adiado. Agora, finalmente, podemos contar com o artigo de Elísio Estanque, que nos traz o antes e o agora da Revolução dos Cravos.


Importa, antes de mais, recordar que durante a longa “noite fascista” (entre 1926 e 1974) as liberdades não existiam, os jovens e os democratas não podiam associar-se, os jornais eram censurados, os informadores secretos da Polícia Política (PIDE) estavam por todo o lado onde houvesse gente com ideias criticas do governo (inclusive nas empresas e nas universidades), não havia nem educação sexual nem liberdade sexual, nem mesmo um par de namorados podia beijar-se em público por ser considerado “atentado à moral”. Usar cabelos compridos ou ouvir música rock podia ser objeto de condenação moral, dos pais, dos chefes, dos professores, da opinião dominante. 

Não por acaso, os movimentos estudantis e juvenis dos anos sessenta e setenta enveredaram por um estilo de vida irreverente, começando a adotar justamente esses comportamentos que ia contra a corrente. Na década de 1960 em todo o mundo (incluindo o Maio de 68 e as crises estudantis em Portugal em 1962 e em 1969) a juventude ergueu-se e protestou abertamente contra o regime opressivo, conservador, atávico, contra a guerra nas antigas colónias, a corrida aos armamentos e a guerra no Vietname ou mesmo a invasão da Chescoslováquia pelos tanque da ex-URSS. Essa rebeldia da juventude acabou por favorecer a consciência democrática, a crítica e a resistência contra o antigo regime, com a forte ajuda de algumas força que se organizavam clandestinamente como foi o caso do Partido Comunista Português, a força política melhor organizada durante o salazarismo, apesar das perseguições e prisões a que foi sujeita.

Ao som de «Grândola Vila Morena», naquela madrugada gloriosa do 25 de Abril de 1974, os nossos capitães do MFA derrubaram o regime político fascista e puseram fim à guerra colonial. O povo veio em massa para as ruas, primeiro, celebrando a liberdade, com cravos vermelhos na mão, e, logo depois – passada a primeira fase de júbilo e a festa colectiva do 1º de Maio de 1974 –, participando activamente nas lutas sociais e na construção do futuro colectivo. Só depois do golpe de Estado militar do dia 25 de abril de 74, começou a verdadeira Revolução dos Cravos. Houve uma «revolução imaginária» e uma «Revolução concreta». Revolução escrita com ‘R’, que passou por fortíssimas clivagens  político-ideológicas, de antagonismos e de lutas coletivas, que na verdade desmantelou o velho Estado Novo de Salazar e Caetano. Com todas as suas contradições, continuidades e ruturas, a transformação social e política teve traços verdadeiramente revolucionários na nossa sociedade ao longo dos últimos 38 anos. 

As mudanças progressistas são indesmentíveis e a democratização é uma realidade em variados campos. Apesar das múltiplas clivagens ideológicas desse período (e deixando de parte todos os excessos), podemos dizer que se viveu a seguir ao 25 de Abril de 1974 uma utopia emancipatória, em que o sentimento de comunhão produziu subjectivamente uma espécie de comunidade ampliada e solidária, em que, sob a influência marcante da ideologia marxista, a classe trabalhadora e o operariado surgiram como o motor dessa «revolução imaginária». Tal experiência colectiva, apesar de assentar numa imensa ilusão – e justamente porque foi subjectivamente vivida com uma intensidade extrema – teve um alcance que foi muito para além das suas consequência imediatas. Os seu efeitos foram múltiplos e contraditórios, mas, acima de tudo, galvanizou a esperança de todo um povo em torno de valores orientados para o progresso, a justiça social e a solidariedade.

Entretanto, passámos por diversas fases: Uma fase de «ressaca» logo a partir de finais dos anos setenta, de rejeição da ideologia e de deceção em relação ao prometido socialismo; uma fase de desenvolvimento de infraestruturas e do Estado social, a que se seguiu um período individualismo e consumista, ao longo dos anos oitenta (sob um clima tecnocrático e liberal); uma fase de reconversão produtiva e de globalização, com um impacto fantástico das novas tecnologias da comunicação (telemóveis, computadores), nos anos noventa; e finalmente a fase mais recente de redes globais e do ciberespaço, marcado por um clima de crise, de precarização do emprego e finalmente de austeridade.  

Durante a era do consumismo e do individualismo as novas gerações revelaram indivíduos frágeis mas hedonistas, despojados e inseguros mas indiferentes à vida coletiva. Passamos hoje por uma fase de grande pessimismo, frustração e empobrecimento geral das classes médias. O cenário de crise em que estamos mergulhados não está, porém, a dar lugar a maiores índices de participação democrática e associativa. Antes se assiste a uma capacidade de aceitação resignada das dificuldades. Alvo momentos raros de protesto (como o M12M, em março de 2011) o que mais se nova, sobretudo entre os mais jovens é a evasão individual e a alienação deliberada através do excesso. No entanto o aumento das depressões, do isolamento e das patologias do foro pessoal e familiar são uma realidade preocupante. 

Hoje vivemos um processo de destruição de um vasto conjunto de conquistas e de direitos sociais que ameaçam os valores do 25 de Abril. Democratizar, Descolonizar e Desenvolver foram os célebres “DDD” invocados pelo movimento dos capitães de Abril estão atualmente sob ameaça. Os cidadãos afastam-se da política e perdem a confiança nas instituições democráticas e nos partidos e a própria liberdade é cerceada devido aos constrangimentos e medos que se insinuam de novo, em espacial no campo profissional. Portugal está de novo com a sua soberania condicionada, desde a entrada da Troika e do resgate dos nossos credores (a soldo dos interesses da Alemanha e do FMI) restringindo  e “colonizando” as nossas opções e o rumo do país. E, por fim, os objetivos de desenvolvimento foram subalternizados em favor das medidas de austeridade e de um prometido equilíbrio das nossas contas, que ninguém sabe quando verá a luz ao fundo do túnel. 

Elísio Estanque
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

terça-feira, 24 de abril de 2012

Poema quase Epitáfio, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje tem como autor a poetisa Luísa Neto Jorge.
Intitulado Poema quase Epitáfio, o poema que se segue tem um carácter marcadamente Surrealista, sendo um dos maiores nomes da Poesia 61, breve revista composta por 5 autores do Sul do país.
Luísa Neto Jorge foi tradutora de grandes nomes da Literatura Universal como Verlaine, Goethe, Apollinaire, entre outros.

 
Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco
Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos
Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)
O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões
- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sou nómada e basta-me, 25 dias, 25 poemas





O poema de hoje é da autoria de Casimiro de Brito.
Este poema, recolhido de uma bela antologia, demonstra uma passividade e indiferença perante a realidade.
Todavia, é nessa indiferença que reside a ironia.
A ironia reside na luta.
A luta reside na esperança.
A Esperança brota o Futuro.,


Sou nómada e basta-me
Beber a água que vem da montanha
E olhar a mica do céu onde se reflectem
As mutações da Coisa — o pó
Que nela pousa. A teia do conhecimento
Está podre e não vou
Deitar-me nela. Escrevo porque sou um arco
Que vai acumulando alguns restos
Alguma dor algum vento perfumado
E subitamente dispara. Cinza. Palavras
Que não têm deuses nem brilho nem nada.

domingo, 22 de abril de 2012

Pátria Lugar de Exílio, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Daniel Filipe, intitulado Pátria Lugar de Exílio.
Daniel Filipe nasceu em Cabo Verde mas cedo veio para Lisboa onde terminou os seus estudos.
Foi colaborador em revistas como Seara Nova e Távola Redonda.
Combateu o regime salazarista e foi várias vezes preso pela PIDE.
O poema seguinte mostra-nos um sentimento de claustrofobia política e existencial.
Neste ano de 1962não como Hazim Hikmet no avião de pedra 
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente 

em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde
Neste ano de 1962 
encostado a uma esquina da estação do Rossio 
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude 
e de enjôo crescente 
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos







Aqui mesmo envolto na placidez burguesa higienicamente limpo e com os papéis em ordem vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria




sábado, 21 de abril de 2012

Os dias do trigo, 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje hoje é da autoria de José Manuel Mendes e encontra-se na obra Os Dias de Trigo.
Nascido em Luanda, cursado em Coimbra, este escritor e actual professor de Comunicação Social na Universidade do Minho esteve sempre atento à realidade do seu país, quer através das críticas, quer através da sua pena.
Com apenas 15 anos publicou o seu primeiro livro de poesia.
Neste poema encontramos um eu lírico preso à terra e aos tesouros que ela esconde. Terra essa que é o Alentejo, mas que pode ser visto como todo Portugal.
Não apagarão nosso rastro
nas areias do tempo

fertéis são as terras onde lavramos
os sinos
da manhã

não calarão o brado solidário
alentejos da esperança
país da coragem
mineral

podem matar-nos

não provarão o mel
dos rios

serão cinzas ao findar
da noite





sexta-feira, 20 de abril de 2012

Os Poemas Possíveis, 25 dias, 25 poemas





José Saramago.
Eis o autor do poema de hoje.
Escritor que só o seu nome carrega toda uma vasta, complexa e maravilhosa Literatura, Literatura essa que é um universo imenso.
Prémio Camões em 1995 (maior prémio Literário nacional); Prémio Nobel da Literatura em 1998, autor de inúmeros romances, ensaísta, dramaturgo, jornalista, serralheiro mecânico, entre tantas outras coisas que fez, foi, faz e ainda é.
José Saramago era membro do Partido Comunista, mas é importante notar que o seu primeiro partido foi sempre a Justiça, a Igualdade, no fundo, a Humanidade.
José Saramago é o exemplo de como a Arte é uma forma de engrandecer a Política, mas a Política não se deve servir da Arte como mero objecto. A Arte deve e tem de ser o espelho de tudo aquilo que queremos que seja o Bom, o Belo e o Justo.
Só uma grande consciência é capaz de ter horizontes sem limites, como era o seu caso.
O poema de hoje insere-se na sua obra Os Poemas Possíveis, publicada em 1966.
Pequeno em palavras é o poema que vos apresentamos.
Mas como as palavras escondem sempre outras palavras, pois a Poesia é sempre outra coisa para além do que se vê, a riqueza deste poema é incalculável.
Enfim, tudo o que se possa dizer sobre este Homem será sempre pouco.
José Saramago é um dos pilares inalianáveis da Literatura Portuguesa.
Afinal, o que é a Vida sem Arte?
Bem-haja!


Só direi
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Mar, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Francisco José Tenreiro.

Com efeito, este poeta nasceu em São Tomé e Príncipe e lá faleceu ainda bastante jovem.

Apesar de não ser um poeta muito conhecido entre os portugueses, Francisco José Tenreiro exaltou a sua raça, a raça dos Negros, o povo do exótico, dos frutos tropicais, do calor e do mar.

Não nos podemos esquecer que este poeta viveu num período em que nos Estados Unidos e na França os negros se começava a lutar pelos direitos dos negros, promovendo a Igualdade e a Justiça.

Assim, o poema que vos deixamos tem como temática não só o mar, mas também o branco e a sua presença (nefasta) em África , assim como breves e subtis referências à Guerra Colonial que prevaleceu por mais de 12 anos, daí a crítica sujacente a Salazar e ao Estado Novo.

Enfim, é um poeta da negritude, mas também um poeta da paz.

É certo que não é de naturalidade portuguesa, mas os temas presentes no poema e a língua lusa que ele veleja com mestria não o fazem da mesma pátria que a nossa?


A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
-Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!...


Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!


O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Notícias do Bloqueio, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje, intitulado Notícias do Bloqueio, é da autoria de Egito Gonçalves.
Este poeta foi escritor, editor e tradutor, sendo que a sua obra está traduzida em várias línguas, tendo em conta que ganhou vários prémios a nível nacional e internacional.
Este poema demonstra o carácter revolucionário e empenhado da escrita de Egito Gonçalves, homem que divulgou a cultura literária do seu país além-fronteiras.

Bem-Haja.

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento

Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva

e a esperança reproduz-se

terça-feira, 17 de abril de 2012

Em todas as ruas te encontro, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje é da autoria de um dos maiores escritores portugueses do século XX - Jorge de Sena.
Intitulado Em todas as ruas te encontro, este poema de temática sensual e erótica foi um dos muitos escritos propositadamente para abalar o ideário de ordem do Estado Novo, sendo dos poemas preferidos de Salazar no que diz respeito à sua eliminação do mundo literário.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Crises Académicas: Génese e Consequências


Geralmente, as greves académicas reivindicam liberdade de associação, condições de bem-estar, serviços de carácter social, o direito de participar nos órgãos de administração, melhorias de qualidade de ensino e investigação, de ordem curricular, etc. O mal-estar político e social favorece a ocorrência de greves e, nesse caso, estas têm consequências políticas relevantes. Por exemplo,  a Greve Académica de 1907 surge na última crise do sistema monárquico com grande importância e permitiu ao rei D. Carlos transformar o governo Constitucional de João Franco em governo Ditatorial, provocando um maior descontentamento popular que favoreceu a instauração da República, que consagrou o direito à greve, logo em 1910. Meio milhar de Greves tiveram lugar entre 1910 e 1926. Entre estas, regista-se a de 25 de Novembro de 1921, na Universidade de Coimbra, com protestos contra as deficientes instalações para os estudantes. Uma das acções de protesto consistiu na ocupação do chamado “Clube dos Lentes” e ficou conhecida por Tomada da “Bastilha”. Esse dia foi consagrado como Dia do Estudante (alterada para 24 de Março em 1962). Este surto teve consequências graves, levando a Ditadura Militar e o Estado Novo a proibirem as Greves em 1927, 1934 e 1958. O direito à greve aparecera em Portugal na segunda metade do século XIX, com Leis de 1864 e de 1891. Com o regime salazarista advieram políticas anti-democráticas, violação da autonomia universitária, privação de direitos de opinião e de associação, crimes políticos de toda a ordem, com prisões, degredos e assassinatos, o mediocrizar das universidades por expulsão e expatriação de professores,  com consequente degradação da qualidade do ensino e da investigação. As greves de 1962 e de 1969 surgem neste contexto e têm fortes motivações políticas que muito contribuíram para a democratização do regime. Para falarmos da greve de 1969, não podemos deixar de a contextualizar e, para isso, temos que evocar a de 1962.

A GREVE DE 1962

Em 1961, as comemorações do 25 de Novembro reuniram em Coimbra estudantes de todo o País. Num jantar com mais de 200 pessoas surgiu o grito “queremos paz” que foi levado para as ruas em cortejo originando represálias policiais e prisões que suscitaram uma vaga de apoio e indignação em todo o país. É neste clima que, em 1962, vários encontros de dirigentes associativos conduzem à criação de um Secretariado Nacional de Estudantes Portugueses que, por sua vez,  promoveu o primeiro Encontro Nacional de Estudantes, em Coimbra, ignorando, frontalmente, um decreto-lei governamental de 1956. Esta rebeldia provocou instauração de processos disciplinares e suspensão de dirigentes associativos ao que Coimbra respondeu com luto académico e a greve às aulas.
As associações de estudantes de Lisboa, sem autorização do Ministério da Educação Nacional, iniciaram as comemorações do dia do estudante a 24 de Março de 1962. A Cidade Universitária foi invadida pela polícia de choque; a cantina foi fechada, muitos estudantes foram espancados e presos. Isto desencadeou uma reacção de repúdio, com luto académico e a greve às aulas. Marcelo Caetano, Reitor da Universidade de Lisboa, consegue mediar uma solução negociada com os estudantes que voltavam às aulas, mas realizaram um alternativo dia do estudante nos dias 7 e 8 de Abril. O Ministério voltou a proibir as comemorações e Marcelo Caetano demitiu-se, segundo uns, por se sentir desautorizado ou, segundo outros, em protesto contra a violência da polícia sobre os estudantes.
Em reacção, os estudantes repuseram o luto académico e desceram até ao Ministério reivindicando autonomia. A greve às aulas continuou até ao fim do ano com confrontos entre estudantes e polícia em Lisboa, Porto e Coimbra. Em represália, o governo reagiu com um decreto-lei que deu poderes ao Ministro da Educação para proceder disciplinarmente contra os estudantes e mandar suspender ou prender dirigentes associativos e outros estudantes.
Apesar disso, os estudantes reuniram-se no Instituto Superior Técnico no dia 14 de Junho, aprovando uma resolução que associava à sua luta pela autonomia universitária, a luta pela autonomia associativa, violando novamente  o  decreto-lei de 1956 que permitia ao Ministério da Educação controlar as reuniões associativas e suspender  ou extinguir as direcções eleitas ou substitui-las por "comissões administrativas". Uns estudantes foram presos, outros expulsos da Universidade em Lisboa, Porto e Coimbra.

Esta tentativa autoritária do Governo provocou a união dos estudantes, incentivando-os a empreenderem lutas pela preservação das suas associações democráticas, mesmo dentro de uma camisa-de-forças ditatorial. Neste processo estavam, entre outros, Jorge Sampaio e Jorge Araújo. Mais tarde, o 24 de Março foi consagrado como Dia do Estudante, pretendendo evidenciar a importância que esta crise académica de 1962 teve como um dos principais abalos do regime salazarista, breves anos após outro abalo que foi o da candidatura presidencial de Humberto Delgado.

A GREVE DE 1969

Neste contexto, entre 1965 e 1968 a Associação Académica de Coimbra foi liderada por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo e os estudantes foram impedidos de participar no Senado e Assembleia da Universidade (como já acontecia anteriormente) até que, em 1969, foram permitidas eleições. Alberto Martins foi eleito presidente da AAC.
 A crise de 1969, surge um mês mais tarde, a “17 de Abril” na sala que, depois, recebeu esta designação. Da comitiva governamental faziam parte Américo Tomás, o Ministro da Educação e o Ministro das Obras Públicas. Os acontecimentos são conhecidos em pormenor (Celso Cruzeiro, por exemplo, publicou em 2009 um livro sobre este evento). Refira-se, brevemente, que Alberto Martins pediu a palavra ao Presidente da República, que lha recusou, alegando que estava a falar o Ministro das O. P. A cerimónia, terminou logo após o MOP acabar de proferir o seu discurso, sem mais, e a comitiva governamental escafedeu-se. Foi então que os estudantes encheram a sala em assembleia improvisada para comentar os acontecimentos, sem incidentes. Alberto Martins seria preso nessa noite pela PIDE.
Isto desencadeou, por um lado, uma série de acusações e acções governamentais e policiais e, por outro, uma série de debates e Assembleias Magnas dos alunos sobre os problemas da Universidade, como os já referidos mais acima, o afastamento de professores por razões políticas; a perda de valores humanísticos e da autonomia de investigação; a subordinação a interesses económicos de cariz tecnocrático, a critérios de desenvolvimento capitalista e objectivos financeiros, a que o processo de Bolonha não é alheio.
Foram decretados luto académico e greve às aulas, repudiadas palavras do Ministro com apoio de muitos docentes. Com a Universidade encerrada por decreto  até aos exames, os estudantes cancelaram a Queima das Fitas e, no dia 28 de Maio, realizam nova Assembleia Magna com a presença estimada em cerca de 6 mil estudantes, onde foi decretada greve aos exames. Partilho as palavras de José Baldaia (à data, presidente do CITAC e uma das vítimas de represálias), ao afirmar que isto foi novo e de grande importância; o regime foi abalado a tal ponto que aplicou castigos absolutamente inéditos na história do fascismo e da Universidade;  nomeadamente, a incorporação militar compulsiva de quase todos os dirigentes das estruturas associativas e culturais; isto perturbou seriamente a hierarquia militar, a ponto de esta ter  desempenhado um papel fundamental na solução do problema ao exigir que o "castigo" fosse anulado.
A 2 de Junho, Coimbra foi sitiada pelas forças policiais e a Universidade ocupada por GNR, PSP e Polícia de choque.

AS CONSEQUÊNCIAS

O Ministro da Educação Nacional e o Reitor foram demitidos e substituídos, numa tentativa de pacificação da academia. A chamada “Primavera Marcelista” não tinha a força política nem anímica necessária, para levar a bom termo as reformas e democratização das estruturas universitárias; mas, embora timidamente, foi um começo; estava aberto o caminho; a sensibilização geral provocada por estas crises, a sensibilização relativa dos meios militares para a injustiça e inutilidade da guerra colonial permitiram que, apesar de uma forte, fascista e cruel polícia política e de uma GNR inculta e fiel ao regime, cinco anos mais tarde, o 25 de Abril de 1974 viesse consagrar esse objectivo.
Hoje, os estudantes manifestam livremente as suas reivindicações, num ambiente democrático de respeito pelos seus direitos, liberdades e garantias. Aquilo que foi conseguido, por pouco que pareça, é de valor incalculável.

Novas Leis, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Fernando Lemos, sendo seu título Novas Leis.
Com efeito, este poeta cedo partiu para o Brasil após a Exposição Surrealista de Lisboa, fazendo parte de um grupo de exilados que o fez por motivos políticos.
É interessante notar que Fernando Lemos é um homem eclético e tem várias obras suas expostas em diversos continentes, pois este poeta é também pintor e fotógrafo, sendo também um amante do desenho.

Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita

Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós

Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado
Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contasdeitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno
Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos
O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição
Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita

domingo, 15 de abril de 2012

Terra (7), 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Fernando Namora, fazendo parte da Obra intitutalada Terra, sendo este o poema número 7.
Fernando Namora fez parte da Geração de 40, geração de Carlos de Oliveira e de outros autores de cariz Neo-Realista, presentes no Novo Cancioneiro, já preteritamente mencionado.

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.

sábado, 14 de abril de 2012

Complicação, 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje á da autoria de Mario Dionísio, tendo o título de Complicação.
Mário Dionísio tem publicações na revista Seara Nova e relacionou-se com artistas Neo-Realistas.
Interessante é também notar que este poeta utilizou alguns heterónimos enquanto pintor, destacando, entre eles, talvez o mais interessante - Leandro Gil.

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão sendo cada vez mais altas.
Ainda bem que o vento nos oferece resistência e o fim é infinito.
Ainda bem. Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Pátria, 25 dias, 25 poemas


Sophia de Mello Breyner Andresen.
Quem não conhece este nome?
Quem não conhece "A menina do Mar"? "A fada Oriana"?, "O Cavaleiro da Dinamarca"?
Pátria, é o título do poema de hoje, da autoria desta poetisa do espanto e da imaginação.
Poetisa e Mulher do Socialismo.
Que pode a Poesia fazer pelo mundo? É a questão que vos deixamos e propomos este video que fala sobre um grande livro desta poetisa "Navegações"
http://www.youtube.com/watch?v=6E199Dtf8jI



Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro


Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas


Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

 
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

"O Portugal futuro é um país...", 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje é da autoria de Alexandre O'Neill, escritor e autodidacta português, descendente de irlandeses.
Com efeito, O'Neill foi um dos promotores do movimento Surrealista em Portugal, nomeadamente na cidade de Lisboa.
Várias vezes preso pela polícia política, comummente conhecida como PIDE, este escritor é também autor da célebre expressão "Há mar e mar, há ir e voltar"

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável.
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz.
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da
matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Reinventar o possível, por Rui Bebiano


O processo de transfiguração do país que o 25 de Abril de 1974 abriu já foi descrito como a “Revolução dos Três D” (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Este é o fundamento comum dos projetos políticos com os quais, a partir dessa data, nos confrontámos por mais de três décadas e meia. A expressão pode parecer hoje algo redutora por não englobar as enormes mudanças que estavam para ocorrer no país no domínio da vida privada, das relações de trabalho e das práticas culturais, mas não deixa de verbalizar princípios programáticos e uma linha de rumo que cruzaram os anos e os diferentes governos. 

Democratizar supunha assim abrir a gestão da coisa pública e do coletivo à voz e à vontade livremente expressa dos cidadãos, o que até ali era impossível. Descolonizar significava despejar o fardo da ideia de império e do domínio dos povos colonizados, o que até ali era impraticável. Desenvolver impunha encontrar e expandir novos ritmos para a criação de riqueza e o bem-estar das populações, o que não constava das perspetivas do velho “país habitual”, idealizado por Salazar como quieto, naturalmente desigual e indiferente às tentações da vida moderna.

A memória partilhada do 25 de Abril guardou esse rastro, que até há pouco governo algum se propôs contrariar. À esquerda ou à direita do bloco político que tomou conta da administração do Portugal pós-revolucionário, com ou sem cravo ao peito, fosse qual fosse a posição diante da Constituição aprovada em 1976, programas e orçamentos, na sua diversidade, jamais ousaram afastar o horizonte de um país melhor, habitado por portugueses mais felizes, tendencialmente “livre, justo e solidário”. Só mesmo o atual contexto de crise pôs travão a esta orientação, definindo uma nova realidade na qual a ditadura dos mercados parece impor, com a complacência de quem governa, o retorno a uma paisagem na qual os processos da democracia e os caminhos do desenvolvimento são confrontados com um recuo até há pouco impensável e com uma subalternização política de tipo neocolonial. Nos anos 80, referindo-se a Portugal, João Martins Pereira falava da “singular intensidade do seu passado recente”. No presente, perante o cenário de resignação e pessimismo que emana da atuação das autoridades públicas, o recurso a estratégias de alternativa passa pelo exercício de uma intensidade democrática em ação, pela revalorização da solidariedade, por uma dinâmica do possível da qual o 25 de Abril permanece um símbolo.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Fundação da JS e o 25 de Abril, por Alberto Arons de Carvalho


A JS foi formalmente criada em duas reuniões realizadas nos dias seguintes ao 25 de Abril na Cooperativa de Estudos e Documentação, na Avenida Duque de Ávila em Lisboa. Esta cooperativa funcionava, desde alguns anos antes, como uma espécie de discreto local de encontro dos socialistas, embora mantivesse uma interessante actividade de animação cultural, nos limites da actividade política.

A Juventude Socialista resultava, todavia, da continuação da actividade dos Jovens Socialistas da Acção Socialista Portuguesa (ASP), antecessora do PS. Essa estrutura, criada em torno da actuação da CEUD na campanha eleitoral para as “eleições” para a Assembleia Nacional, em 1969, tentaria alargar a sua influência entre os estudantes universitários, prosseguindo a sua implantação e actividade de forma inorgânica. Por um lado, os jovens socialistas tinham como objectivo a participação nas estruturas e actividades associativas dos estudantes, envolvendo-se no movimento estudantil e nas greves, manifestações ou outras iniciativas contra o regime de então. Por outro, ensaiaram algumas acções de protesto e de combate político, entre as quais a distribuição na Universidade de panfletos próprios ou do jornal da ASP, o Portugal Socialista, a inscrição nas paredes de Lisboa, sobretudo na Universidade Clássica, de frases contra o regime fascista ou pela libertação de presos políticos como Salgado Zenha e Jaime Gama, a elaboração e a distribuição do “Esquerda”, órgão dos Jovens Socialistas Portugueses, um jornal em formato A4, cujo segundo número seria, em condições atribuladas, impresso em casa de Mário Cal Brandão, uma das grandes figuras socialistas do Porto.

A fundação da JS, logo a seguir ao 25 de Abril, envolveria também um importante grupo de jovens originários de sectores católicos progressistas ligados à Juventude Universitária Católica (JUC), nomeadamente José Leitão e Margarida Marques, cujos primeiros contactos e participação nas actividades dos jovens socialistas se tinham já concretizado no início dos anos 70.

A implantação de um regime democrático, graças à revolução do 25 de Abril de 1974, imporia novas responsabilidade aos jovens socialistas, a começar pela sua constituição formal enquanto organização juvenil de um partido, o Partido Socialista.

A formação da JS traduziu-se em vários desafios. O primeiro deles foi o da organização e implantação entre os jovens portugueses.

Nos meses seguintes à Revolução de Abril, não era necessário qualquer esforço especial de mobilização para atrair novos militantes. Bastava existir uma sede aberta para que dezenas, centenas de jovens pretendessem aderir à JS. Em Fevereiro de 1975, cerca de dez meses depois da institucionalização da JS, altura em que se realizou o I Congresso, já havia cerca de 8 mil militantes. No segundo congresso, em Novembro de 1976, a JS já registava 15 mil inscrições. Impunha-se por isso criar estruturas em todos os concelhos, integrá-las no PS, garantir que esses núcleos da JS teriam uma voz activa no partido, articular as estruturas distritais e uniformizar – na medida do possível naquela época de enorme instabilidade e efervescência…- a orientação política e ideológica.

Os acontecimentos posteriores ao 25 de Abril iriam trazer novos desafios. Com efeito, passada a fase eufórica, iriam defrontar-se na sociedade portuguesa duas correntes político-militares: de um lado, uma facção vanguardista e revolucionária, de inspiração marxista-leninista, notoriamente pouco sensível às liberdades ditas burguesas e ao parlamentarismo, onde alinhavam o PCP, diversos grupos da extrema-esquerda e uma corrente do MFA (Movimento das Forças Armadas); do outro, os defensores de uma concepção pluralista, integrada no tradicional modelo europeu de democracia política.

Apesar das cumplicidades reforçadas na luta antifascista com outras forças da esquerda, o PS alinharia, ou melhor, lideraria a corrente democrática e plural que sairia vencedora no 25 de Novembro de 1975.

Os primeiros dois anos da vida da JS seriam, desta forma, marcados por uma evidente contradição. Os jovens socialistas estavam solidários com o Partido liderado por Mário Soares, mantinham-se fiéis aos ideais democráticos que presidiram à sua criação e bateram-se pela consolidação das liberdades fundamentais pelas quais tanto tinham combatido os socialistas durante o regime fascista. No entanto, sobretudo entre os estudantes universitários, imperavam claramente as correntes esquerdistas, que despertavam o entusiasmo dos mais jovens.

Esta contradição não impediria que a JS consolidasse a sua influência estudantil, nomeadamente através da vitória de listas por si apoiadas em associações tão relevantes como a Associação Académica de Coimbra ou as Faculdade de Direito, Letras, e Medicina e o ISEL em Lisboa.

Esses primeiros tempos da JS – entre a sua fundação formal logo a seguir ao 25 de Abril e o II Congresso em Novembro de 1976, ficaram igualmente fortemente marcados por dois aspectos: em primeiro lugar, a estruturação e implantação no terreno da organização, através da constituição e legitimação dos seus órgãos nacionais e dos núcleos de residência, de empresa ou de escola; em segundo lugar, a mobilização dos jovens socialistas, ao lado das estruturas partidárias, para o combate pela consolidação de uma democracia política.

Neste contexto, o debate sobre temas específicos dos jovens trabalhadores e estudantes e a afirmação de propostas reivindicativas de política educativa ou laboral seriam claramente secundarizados, apenas sendo tornados prioritários mais tarde.

Estas prioridades não impediriam que a JS prosseguisse uma importante acção noutros domínios, nomeadamente através da publicação regular de um jornal – Jovem Socialista, dirigido pelo José Leitão – e de algumas acções no âmbito internacional, entre as quais o apoio à organização e a realização em Sintra de um Congresso das Juventudes Socialistas do PSOE, com centenas de participantes vindos do país vizinho, numa altura em que não estava ainda implantado um regime democrático em Espanha.

De resto, depois de uma época de claro confronto entre diferentes concepções político ideológicas, terminada com o 25 de Novembro de 1975, começava o tempo da afirmação das políticas sectoriais. A JS, que estivera do lado certo nos combates no tempo do PREC (expressão então em voga que significava “processo revolucionário em curso”…), saberia manter o grau de exigência e responsabilidade que se impunham à organização dos jovens do maior partido português.

Para a semana:

domingo, 1 de abril de 2012

Esta Arma Mata Fascistas

A Juventude Socialista de Marco de Canaveses não esquece a importância que a música teve na luta contra a ditadura que vigorou em Portugal durante 41 anos, 1933-1974. Como forma de prestar homenagem a todos esses autores, compositores, interpretes e cantautores, será publicado, diariamente, neste blogue, até dia 25 de Abril, uma música diferente para mostrarmos algumas das belas coisas que foram feitas durante os tempos do lápis azul.

Hoje, excepcionalmente, a música será publicada “em primeiro plano”, sendo que nos próximos dias poderão encontrar a “música do dia”, na barra do lado esquerdo, com o nome "Esta Arma Mata Fascistas", claro que este "mata" não é no seu verdadeiro sentido, mas sim no sentido de que com estas músicas se foi corroendo o regime que acabou por cair.
Espero que gostem da nossa selecção.


Sophia de Mello Breyner
Francisco Fanhais