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terça-feira, 24 de abril de 2012

Poema quase Epitáfio, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje tem como autor a poetisa Luísa Neto Jorge.
Intitulado Poema quase Epitáfio, o poema que se segue tem um carácter marcadamente Surrealista, sendo um dos maiores nomes da Poesia 61, breve revista composta por 5 autores do Sul do país.
Luísa Neto Jorge foi tradutora de grandes nomes da Literatura Universal como Verlaine, Goethe, Apollinaire, entre outros.

 
Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco
Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos
Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)
O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões
- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sou nómada e basta-me, 25 dias, 25 poemas





O poema de hoje é da autoria de Casimiro de Brito.
Este poema, recolhido de uma bela antologia, demonstra uma passividade e indiferença perante a realidade.
Todavia, é nessa indiferença que reside a ironia.
A ironia reside na luta.
A luta reside na esperança.
A Esperança brota o Futuro.,


Sou nómada e basta-me
Beber a água que vem da montanha
E olhar a mica do céu onde se reflectem
As mutações da Coisa — o pó
Que nela pousa. A teia do conhecimento
Está podre e não vou
Deitar-me nela. Escrevo porque sou um arco
Que vai acumulando alguns restos
Alguma dor algum vento perfumado
E subitamente dispara. Cinza. Palavras
Que não têm deuses nem brilho nem nada.

domingo, 22 de abril de 2012

Pátria Lugar de Exílio, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Daniel Filipe, intitulado Pátria Lugar de Exílio.
Daniel Filipe nasceu em Cabo Verde mas cedo veio para Lisboa onde terminou os seus estudos.
Foi colaborador em revistas como Seara Nova e Távola Redonda.
Combateu o regime salazarista e foi várias vezes preso pela PIDE.
O poema seguinte mostra-nos um sentimento de claustrofobia política e existencial.
Neste ano de 1962não como Hazim Hikmet no avião de pedra 
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente 

em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde
Neste ano de 1962 
encostado a uma esquina da estação do Rossio 
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude 
e de enjôo crescente 
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos







Aqui mesmo envolto na placidez burguesa higienicamente limpo e com os papéis em ordem vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria




sábado, 21 de abril de 2012

Os dias do trigo, 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje hoje é da autoria de José Manuel Mendes e encontra-se na obra Os Dias de Trigo.
Nascido em Luanda, cursado em Coimbra, este escritor e actual professor de Comunicação Social na Universidade do Minho esteve sempre atento à realidade do seu país, quer através das críticas, quer através da sua pena.
Com apenas 15 anos publicou o seu primeiro livro de poesia.
Neste poema encontramos um eu lírico preso à terra e aos tesouros que ela esconde. Terra essa que é o Alentejo, mas que pode ser visto como todo Portugal.
Não apagarão nosso rastro
nas areias do tempo

fertéis são as terras onde lavramos
os sinos
da manhã

não calarão o brado solidário
alentejos da esperança
país da coragem
mineral

podem matar-nos

não provarão o mel
dos rios

serão cinzas ao findar
da noite





sexta-feira, 20 de abril de 2012

Os Poemas Possíveis, 25 dias, 25 poemas





José Saramago.
Eis o autor do poema de hoje.
Escritor que só o seu nome carrega toda uma vasta, complexa e maravilhosa Literatura, Literatura essa que é um universo imenso.
Prémio Camões em 1995 (maior prémio Literário nacional); Prémio Nobel da Literatura em 1998, autor de inúmeros romances, ensaísta, dramaturgo, jornalista, serralheiro mecânico, entre tantas outras coisas que fez, foi, faz e ainda é.
José Saramago era membro do Partido Comunista, mas é importante notar que o seu primeiro partido foi sempre a Justiça, a Igualdade, no fundo, a Humanidade.
José Saramago é o exemplo de como a Arte é uma forma de engrandecer a Política, mas a Política não se deve servir da Arte como mero objecto. A Arte deve e tem de ser o espelho de tudo aquilo que queremos que seja o Bom, o Belo e o Justo.
Só uma grande consciência é capaz de ter horizontes sem limites, como era o seu caso.
O poema de hoje insere-se na sua obra Os Poemas Possíveis, publicada em 1966.
Pequeno em palavras é o poema que vos apresentamos.
Mas como as palavras escondem sempre outras palavras, pois a Poesia é sempre outra coisa para além do que se vê, a riqueza deste poema é incalculável.
Enfim, tudo o que se possa dizer sobre este Homem será sempre pouco.
José Saramago é um dos pilares inalianáveis da Literatura Portuguesa.
Afinal, o que é a Vida sem Arte?
Bem-haja!


Só direi
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Mar, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Francisco José Tenreiro.

Com efeito, este poeta nasceu em São Tomé e Príncipe e lá faleceu ainda bastante jovem.

Apesar de não ser um poeta muito conhecido entre os portugueses, Francisco José Tenreiro exaltou a sua raça, a raça dos Negros, o povo do exótico, dos frutos tropicais, do calor e do mar.

Não nos podemos esquecer que este poeta viveu num período em que nos Estados Unidos e na França os negros se começava a lutar pelos direitos dos negros, promovendo a Igualdade e a Justiça.

Assim, o poema que vos deixamos tem como temática não só o mar, mas também o branco e a sua presença (nefasta) em África , assim como breves e subtis referências à Guerra Colonial que prevaleceu por mais de 12 anos, daí a crítica sujacente a Salazar e ao Estado Novo.

Enfim, é um poeta da negritude, mas também um poeta da paz.

É certo que não é de naturalidade portuguesa, mas os temas presentes no poema e a língua lusa que ele veleja com mestria não o fazem da mesma pátria que a nossa?


A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
-Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!...


Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!


O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Notícias do Bloqueio, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje, intitulado Notícias do Bloqueio, é da autoria de Egito Gonçalves.
Este poeta foi escritor, editor e tradutor, sendo que a sua obra está traduzida em várias línguas, tendo em conta que ganhou vários prémios a nível nacional e internacional.
Este poema demonstra o carácter revolucionário e empenhado da escrita de Egito Gonçalves, homem que divulgou a cultura literária do seu país além-fronteiras.

Bem-Haja.

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento

Vai pois e noticia como um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva

e a esperança reproduz-se

terça-feira, 17 de abril de 2012

Em todas as ruas te encontro, 25 dias, 25 poemas


O poema de hoje é da autoria de um dos maiores escritores portugueses do século XX - Jorge de Sena.
Intitulado Em todas as ruas te encontro, este poema de temática sensual e erótica foi um dos muitos escritos propositadamente para abalar o ideário de ordem do Estado Novo, sendo dos poemas preferidos de Salazar no que diz respeito à sua eliminação do mundo literário.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Novas Leis, 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Fernando Lemos, sendo seu título Novas Leis.
Com efeito, este poeta cedo partiu para o Brasil após a Exposição Surrealista de Lisboa, fazendo parte de um grupo de exilados que o fez por motivos políticos.
É interessante notar que Fernando Lemos é um homem eclético e tem várias obras suas expostas em diversos continentes, pois este poeta é também pintor e fotógrafo, sendo também um amante do desenho.

Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita

Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós

Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado
Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contasdeitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno
Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos
O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição
Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita

domingo, 15 de abril de 2012

Terra (7), 25 dias, 25 poemas



O poema de hoje é da autoria de Fernando Namora, fazendo parte da Obra intitutalada Terra, sendo este o poema número 7.
Fernando Namora fez parte da Geração de 40, geração de Carlos de Oliveira e de outros autores de cariz Neo-Realista, presentes no Novo Cancioneiro, já preteritamente mencionado.

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.

sábado, 14 de abril de 2012

Complicação, 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje á da autoria de Mario Dionísio, tendo o título de Complicação.
Mário Dionísio tem publicações na revista Seara Nova e relacionou-se com artistas Neo-Realistas.
Interessante é também notar que este poeta utilizou alguns heterónimos enquanto pintor, destacando, entre eles, talvez o mais interessante - Leandro Gil.

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão sendo cada vez mais altas.
Ainda bem que o vento nos oferece resistência e o fim é infinito.
Ainda bem. Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Pátria, 25 dias, 25 poemas


Sophia de Mello Breyner Andresen.
Quem não conhece este nome?
Quem não conhece "A menina do Mar"? "A fada Oriana"?, "O Cavaleiro da Dinamarca"?
Pátria, é o título do poema de hoje, da autoria desta poetisa do espanto e da imaginação.
Poetisa e Mulher do Socialismo.
Que pode a Poesia fazer pelo mundo? É a questão que vos deixamos e propomos este video que fala sobre um grande livro desta poetisa "Navegações"
http://www.youtube.com/watch?v=6E199Dtf8jI



Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro


Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas


Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

 
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

"O Portugal futuro é um país...", 25 dias, 25 poemas




O poema de hoje é da autoria de Alexandre O'Neill, escritor e autodidacta português, descendente de irlandeses.
Com efeito, O'Neill foi um dos promotores do movimento Surrealista em Portugal, nomeadamente na cidade de Lisboa.
Várias vezes preso pela polícia política, comummente conhecida como PIDE, este escritor é também autor da célebre expressão "Há mar e mar, há ir e voltar"

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável.
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz.
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da
matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Fundação da JS e o 25 de Abril, por Alberto Arons de Carvalho


A JS foi formalmente criada em duas reuniões realizadas nos dias seguintes ao 25 de Abril na Cooperativa de Estudos e Documentação, na Avenida Duque de Ávila em Lisboa. Esta cooperativa funcionava, desde alguns anos antes, como uma espécie de discreto local de encontro dos socialistas, embora mantivesse uma interessante actividade de animação cultural, nos limites da actividade política.

A Juventude Socialista resultava, todavia, da continuação da actividade dos Jovens Socialistas da Acção Socialista Portuguesa (ASP), antecessora do PS. Essa estrutura, criada em torno da actuação da CEUD na campanha eleitoral para as “eleições” para a Assembleia Nacional, em 1969, tentaria alargar a sua influência entre os estudantes universitários, prosseguindo a sua implantação e actividade de forma inorgânica. Por um lado, os jovens socialistas tinham como objectivo a participação nas estruturas e actividades associativas dos estudantes, envolvendo-se no movimento estudantil e nas greves, manifestações ou outras iniciativas contra o regime de então. Por outro, ensaiaram algumas acções de protesto e de combate político, entre as quais a distribuição na Universidade de panfletos próprios ou do jornal da ASP, o Portugal Socialista, a inscrição nas paredes de Lisboa, sobretudo na Universidade Clássica, de frases contra o regime fascista ou pela libertação de presos políticos como Salgado Zenha e Jaime Gama, a elaboração e a distribuição do “Esquerda”, órgão dos Jovens Socialistas Portugueses, um jornal em formato A4, cujo segundo número seria, em condições atribuladas, impresso em casa de Mário Cal Brandão, uma das grandes figuras socialistas do Porto.

A fundação da JS, logo a seguir ao 25 de Abril, envolveria também um importante grupo de jovens originários de sectores católicos progressistas ligados à Juventude Universitária Católica (JUC), nomeadamente José Leitão e Margarida Marques, cujos primeiros contactos e participação nas actividades dos jovens socialistas se tinham já concretizado no início dos anos 70.

A implantação de um regime democrático, graças à revolução do 25 de Abril de 1974, imporia novas responsabilidade aos jovens socialistas, a começar pela sua constituição formal enquanto organização juvenil de um partido, o Partido Socialista.

A formação da JS traduziu-se em vários desafios. O primeiro deles foi o da organização e implantação entre os jovens portugueses.

Nos meses seguintes à Revolução de Abril, não era necessário qualquer esforço especial de mobilização para atrair novos militantes. Bastava existir uma sede aberta para que dezenas, centenas de jovens pretendessem aderir à JS. Em Fevereiro de 1975, cerca de dez meses depois da institucionalização da JS, altura em que se realizou o I Congresso, já havia cerca de 8 mil militantes. No segundo congresso, em Novembro de 1976, a JS já registava 15 mil inscrições. Impunha-se por isso criar estruturas em todos os concelhos, integrá-las no PS, garantir que esses núcleos da JS teriam uma voz activa no partido, articular as estruturas distritais e uniformizar – na medida do possível naquela época de enorme instabilidade e efervescência…- a orientação política e ideológica.

Os acontecimentos posteriores ao 25 de Abril iriam trazer novos desafios. Com efeito, passada a fase eufórica, iriam defrontar-se na sociedade portuguesa duas correntes político-militares: de um lado, uma facção vanguardista e revolucionária, de inspiração marxista-leninista, notoriamente pouco sensível às liberdades ditas burguesas e ao parlamentarismo, onde alinhavam o PCP, diversos grupos da extrema-esquerda e uma corrente do MFA (Movimento das Forças Armadas); do outro, os defensores de uma concepção pluralista, integrada no tradicional modelo europeu de democracia política.

Apesar das cumplicidades reforçadas na luta antifascista com outras forças da esquerda, o PS alinharia, ou melhor, lideraria a corrente democrática e plural que sairia vencedora no 25 de Novembro de 1975.

Os primeiros dois anos da vida da JS seriam, desta forma, marcados por uma evidente contradição. Os jovens socialistas estavam solidários com o Partido liderado por Mário Soares, mantinham-se fiéis aos ideais democráticos que presidiram à sua criação e bateram-se pela consolidação das liberdades fundamentais pelas quais tanto tinham combatido os socialistas durante o regime fascista. No entanto, sobretudo entre os estudantes universitários, imperavam claramente as correntes esquerdistas, que despertavam o entusiasmo dos mais jovens.

Esta contradição não impediria que a JS consolidasse a sua influência estudantil, nomeadamente através da vitória de listas por si apoiadas em associações tão relevantes como a Associação Académica de Coimbra ou as Faculdade de Direito, Letras, e Medicina e o ISEL em Lisboa.

Esses primeiros tempos da JS – entre a sua fundação formal logo a seguir ao 25 de Abril e o II Congresso em Novembro de 1976, ficaram igualmente fortemente marcados por dois aspectos: em primeiro lugar, a estruturação e implantação no terreno da organização, através da constituição e legitimação dos seus órgãos nacionais e dos núcleos de residência, de empresa ou de escola; em segundo lugar, a mobilização dos jovens socialistas, ao lado das estruturas partidárias, para o combate pela consolidação de uma democracia política.

Neste contexto, o debate sobre temas específicos dos jovens trabalhadores e estudantes e a afirmação de propostas reivindicativas de política educativa ou laboral seriam claramente secundarizados, apenas sendo tornados prioritários mais tarde.

Estas prioridades não impediriam que a JS prosseguisse uma importante acção noutros domínios, nomeadamente através da publicação regular de um jornal – Jovem Socialista, dirigido pelo José Leitão – e de algumas acções no âmbito internacional, entre as quais o apoio à organização e a realização em Sintra de um Congresso das Juventudes Socialistas do PSOE, com centenas de participantes vindos do país vizinho, numa altura em que não estava ainda implantado um regime democrático em Espanha.

De resto, depois de uma época de claro confronto entre diferentes concepções político ideológicas, terminada com o 25 de Novembro de 1975, começava o tempo da afirmação das políticas sectoriais. A JS, que estivera do lado certo nos combates no tempo do PREC (expressão então em voga que significava “processo revolucionário em curso”…), saberia manter o grau de exigência e responsabilidade que se impunham à organização dos jovens do maior partido português.

Para a semana:

domingo, 1 de abril de 2012

Esta Arma Mata Fascistas

A Juventude Socialista de Marco de Canaveses não esquece a importância que a música teve na luta contra a ditadura que vigorou em Portugal durante 41 anos, 1933-1974. Como forma de prestar homenagem a todos esses autores, compositores, interpretes e cantautores, será publicado, diariamente, neste blogue, até dia 25 de Abril, uma música diferente para mostrarmos algumas das belas coisas que foram feitas durante os tempos do lápis azul.

Hoje, excepcionalmente, a música será publicada “em primeiro plano”, sendo que nos próximos dias poderão encontrar a “música do dia”, na barra do lado esquerdo, com o nome "Esta Arma Mata Fascistas", claro que este "mata" não é no seu verdadeiro sentido, mas sim no sentido de que com estas músicas se foi corroendo o regime que acabou por cair.
Espero que gostem da nossa selecção.


Sophia de Mello Breyner
Francisco Fanhais