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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

JS Marco estreia novo espaço de opinião

O blogue da Juventude Socialista do Marco de Canaveses vai inaugurar um novo espaço de opinião semanal. Todas as quartas-feiras terá «+ opinião» neste espaço. 

João Valdoleiros, que é já uma referência habitual, irá permanecer por cá com as suas «divagações». 

O ex-líder da JS Marco Bruno Caetano trará mensalmente crónicas de «política avulsa». 

A «Gaitada da Decadência» continua também a prometer, com José Vieira ao leme. 

Por fim, uma vez por mês, o nosso blog contará com um convidado diferente. Para começar, quem melhor do que o secretário-geral da JS, João Torres?!

Este espaço continua a prometer novidades! Acompanha-nos. Junta-te a nós!




quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Gaitada da Decadência - Apresentação




De como decidimos escrever estas páginas e não ir a uma patuscada na taberna da esquina.
            O estado do país, do concelho e uma mini.
            De como os autores destas palavras contemplam o país. A pobreza e as telenovelas. A vidinha. O que a vizinha leu no tarot da revista desta semana.
            O governo de uma maioria fantoche. A oposição e um copo de água no Parlamento.           As estradas e os caminhos de ferro de ontem.
            A cultura de um país.
            O café, o jornal e o sermão do padre. A Religião e a religião.
            Os heróis, os ídolos e os actores. Segredos de uma casa e de um quase país.
            De como surgiu esta ideia da Gaitada da Decadência, fina, com um chic pelo meio. Antero de Quental, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, mestres.
            O monóculo e os Ray Ban.
            O porquê de escrever estas palavras e não ficar online vendo os aviões.
            A vontade da juventude mudar o mundo. As suas ideias revolucionárias ditas no café ao pé de casa. A precoce barriga de cerveja. Os chumbos. A boémia e a vontade de trabalhar.
            O mal dos povos. A inveja.
Tu, leitor livre, aproxima-te um pouco das nossas palavras e lê.
Lê sem compromissos, lê com a liberdade de uma gaivota em alto mar.
          Sim, estas páginas são para ti, leitor de bom senso, socialista, comunista, anarquista, bloquista, social-democrata, independente, cristão, muçulmano, judeu, budista, ateu, agnóstico, filósofo, escritor, jornalista, crítico, filósofo, médico, advogado, agricultor, reformado, desempregado, entre outros.
            É para ti que isto é escrito. E a ideia de te dar assim, com regularidade, umas páginas frescas, jocosas, ardentes, polémicas, verdadeiras, sem nenhum tipo de interesse a não ser a verdade e a justiça. Sim, umas páginas finas, zombeteiras, sarcásticas, trocistas, satíricas. Irónicas.
            Chega-te a nós, não tenhas medo, amigo leitor. Chega-te e espreita de lado, como quem desconfia da esmola que é grande demais.
            O país continua a perder a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão perdidos pelos rochedos mais recônditos de um interior cada vez mais deserto. A prática de viver tem por único fim o comodismo e o comer e beber bem. Não há princípio que não seja criticado. Não há instituição que não seja mordazmente escalpelizada e criticada. O senso comum impera!
            Não há solidariedade entre os cidadãos. Os vizinhos cochicham da vida do outro vizinho e invejam-lhe o jardim, o automóvel, a roupa, o filho, o cão!
            O povo está na miséria. Os serviços públicos estão de rastos, balofos, pesados, não se conseguem mexer com o colesterol e a diabetes de uma crise sempre viúva e fresca. Antes chamavam-lhe crise, pelos vistos, a senhora crise fez uma operação plástica, maquiou-se, arranjou o cabelo e chama-se Dona Troika, um nome americanado, dizem os entendidos em estética económica.
            O desprezo pela Política, pela Cultura, pela Filosofia, pelas Ideias aumenta a cada dia. A juventude sai das aulas para ir para o café falar de barriga cheia do ar e de coisas leves como o vento, se calhar até mais leves e insignificantes que o vento. Não! A juventude sai das aulas e vai para as bibliotecas estudar e pesquisar, sai das aulas e vai até uma instituição social ajudar, sai das aulas e vai até ao hospital visitar os doentes, sai das aulas e ajuda os pais em casa no que for preciso. A juventude pensa e filosofa. Tudo isto faz a juventude! Mas não a do nosso país! Blague!
            Por estas zonas do bendito Norte do país, entre o Douro e o Baixo Tâmega, onde começa e reina o Marão, a maior parte da juventude é caduca e caquéctica. É invejosa e fala pelas costas! Como é que chegamos ao ponto de ter uma juventude, uma verde folha já corrompida pelas mentalidades dos pais também muitos deles invejosos de tudo? É o café que nos prende a vida, é a televisão nacional e os seus programas de enorme interesse cultural que nos estreita o pensamento… A solução parece estar numa fórmula bastante moderna. Mais Prozac e menos Platão, se faz favor.
            Pensa, leitor amigo. Pensa e tens a resposta.
           A juventude arrasta-se envelhecida das mesas das escolas para as mesas de poker ou do café.
            A economia definha, definha, definha. O senso comum impera!
            A indústria fecha. O pequeno comércio fecha. O desemprego galopa a uma velocidade de cruzeiro e os cavalos começam a fazersombra no mar, com perdão da utilização do título do livro de um ilustre escritor da nossa mãe língua, António Lobo Antunes. A cultura não é apoiada. O bom senso e o bom gosto parecem querer fechar também.
            Na rua, nas paragens de autocarro raros são aqueles que têm debaixo do braço, consigo, um livro. Longe vai o tempo em que se viam os jovens com Marx, Proudhon, Taine, Spencer, Keynes, Churchill, Victor Hugo, Byron, Lamartine, Herculano, Garret e muitos outros, caminhando pelas ruas e levando os livros como quem carrega e esconde o futuro e um mundo cheio de possibilidades. Algo grandioso e bom a nascer. Ainda vamos vendo livros, que devem muito ao nome livro, pois mais não são que um aglomerado de páginas, ou seja, a vidinha em folhas de papel, veja-se certos autores portugueses que vendem muito bem essa sucata intelectual. Nomes não os dou, porque as margaridas são flores belas e agradáveis que se devem cheirar e ver no jardim, somente.
            As revistas cor-de-rosa reinam e espalham a sua tinta por todos os poros da sociedade. As pessoas são rosadas pelas leves e fantásticas notícias do high-life.
            Chegou ontem de Nova Iorque a ilustre Betty Graffestein e o seu marido José Castelo Branco. Desembarcaram em Lisboa e já se encontram em casa, o que nos folga bastante e faz-nos adormecer mais tranquilos; ou então: o famoso jogador de futebol, o Sr. Cristiano Ronaldo é pai de uma criança felizarda que é avaliada em cerca de 12 milhões de euros!; melhor ainda: o convidado deste telejornal ou programa é um candidato à casa dos segredos e vem falar-nos da sua vida! Oh maravilhas dos céus! Oh mistérios do Altíssimo! Oh sagrada notícia! Como o mundo se torna num lugar mais justo com estas novidades!
            Blague!
            Eis o que os pincéis e as penas e canetas dessas revistas e mesmo de alguns jornais rosam por este extremo da Ibérica Península!
            Por todo o lado ouve-se dizer que o país está podre, que o país está em crise. Hoje escolhemos utilizar o vocábulo crise em vez de decadência. A magia das palavras. Todos falam da podridão, mas todos parecem gostar de permanecer na podridão!
 
Nós não queremos ser cúmplices da indiferença universal e portugalesca!
            E desta forma começamos, sem injustiça e sem cólera, a apontar o progresso da crise.
            E fá-lo-emos de uma forma humorística e jovial, pois de que outra maneira o poderíamos fazer?
            Os jornais políticos cortariam o que seria nocivo para a ideiazinha, os tipógrafos fariam longos riscos pelas páginas todas.
            Assim, utilizamos este humor fresco, jovem, bem-disposto e sorridente, irónico.
            Que mais uma vez se ponha a galhofa ao serviço da Justiça!
Aqui estamos diante de ti, mundo oficial, democrático, proprietário, burguês,  corrupto e consumista! Não sabemos se a mão que vamos abrir está cheia de verdades. Sabemos que está cheia de negativas.
            Somos dois simples batedores à ordem da mofa e do senso comum. Por agora somos só nós e estas palavras. O grosso da armada vem atrás. Chama-se Justiça.
           
            Eis-nos! E assim vamos dando uma gaitada ao de leve na superfície dos acontecimentos, na sociedade e no established. Cada gaitada simples e humilde, irónica e curiosa, há-de soltar o seu antídoto pelos corpos e pelas veias deste grande corpo a que se chama Sociedade e Civilização.
            Nunca estas gaitadas ferirão verdadeiramente a artéria aorta da sociedade, o chic, os políticos e as pessoas importantes, os corruptos que têm dinheiro como Portugal tem pobres e desempregados!
            Vamo-nos rir, pois!
            


segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Socialismo deverá ser o Cristianismo dos nossos dias


E se o Cristianismo voltasse a ser a revolução dos nossos dias?
         Aquando da conclusão da sua intervenção nas Conferências do Casino Lisbonense, com o título Causas da decadência dos povos peninsulares, em 1871, Antero de Quental remata a sua intervenção com este célebre pensamento. “ O Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.”
         De facto, que Cristianismo é esse? Que Revolução devemos esperar?
         Política e Religião. Talvez dois temas, duas matérias aparentemente distantes e talvez, talvez, bastante próximas.
         Da Política sabemos que é uma das mais nobres das artes humanas. Sim! A Política também é uma arte, pelo menos, se não o é, deve aspirar a sê-lo, como mais tarde veremos. É pena que o poder autárquico marcoense não tenha essa consciência artística, nem na política nem na cultura! Blague!
         Da Religião conhecemos os credos do mundo inteiro, as peregrinações, os cultos, os santuários. Uma humanidade inteira que se ajoelha perante deuses tão díspares e tão irmãos. O Amor.
         Na verdade, se fizermos uma viagem até ao étimo da palavra religião iremos desvendar dois significados bastante interessantes.
         Por um lado, encontramos, segundo Cícero, orador e político romano, relegere, o que significa voltar a ler; por outro lado, podemo-nos confrontar com o étimo proposto por Lactâncio, um dos primeiros escritores cristãos, religare, que podemos traduzir como voltar a ligar.
         Ora, em ambos os casos está presente a necessidade de voltar,isto é, a religião surge aos olhos do Homem como algo primordial do qual nos desligamos no Alfa, no Início dos inícios, mas ao qual nos temos de voltar a unir. A unidade só existe na multiplicidade.
         Assim, Religião é um retorno a algo perdido em nós.
É interessante notar como Platão, um dos maiores filósofos de todos os tempos, apresenta uma ideia semelhante quando fala do mundo sensível e inteligível, pois o homem, ser inteligível mas que vive no mundo sensível, deve voltar a ligar-se ao mundo inteligível.
         Pois não há semelhanças entre os étimos de religião e esta ideia de Platão?
         Já o étimo de política é diferente e pode ter várias significações, o que nos leva a escolher somente duas propostas que surgem como antonomásia de todas as outras. Uma é Politeia, que significa o direito dos cidadãos, enquanto outra é polis+technè, o que podemos traduzir como a arte política, de bem gerir a polis, cidade-estado.
         Este último conceito vai ao encontro do que Mário Soares publicou no seu penúltimo livro intitulado “O Elogio da Política”, afirmando que a Política é das artes mais nobres do ser humano.
         De facto, não é a Política a Arte de saber organizar, até certo ponto e de certo modo, a Sociedade, a Humanidade?
         Após esta introdução aos vocábulos Política e Religião, voltamos a Antero e ao seu pensamento.
“O Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.”
O que é o Socialismo?
(Caro leitor, não estranhes se por vezes a voz que fala tomar uma atitude própria. Não te assombres se a voz ganhar vida própria e existir nestas palavras. Não te admires se, por vezes, surgir um eu que escreve e que pensa. Um eu que vive.)
         Uma pergunta que me leva a reflexões repletas de silêncio e de pianos que choram enquanto penso no Socialismo.
         Se penso como um amante das Letras, dir-vos-ia que o Socialismo é a Literatura dos Pobres.
         Defino o Socialismo com três palavras grandes: Justiça, Igualdade, Verdade. Como se se tratasse de uma trindade profana, mas que no fundo, como iremos explicar, torna-se divina.
         No fundo, qual é a base de todas as religiões senão o Amor?
         Atentemos no Cristianismo, que é de todas as religiões aquela em que estamos mais inteirados, sendo crentes ou agnósticos, tendo em conta que não acredito no ateísmo (caso queiram colocar alguma dúvida sobre este ponto último comentem que responder-vos-ei prontamente).
         O Amor, aliado ao Perdão, é o maior ensinamento de Jesus Cristo entre nós.
         Só o Amor constroi, edifica e prevalece.
         Há um ditado indiano que diz que “O Amor vence tudo”
         Dois mil anos depois o Cristianismo prevalece. Dois mil anos depois o Amor prevalece.
         Política e Religião. Estarão assim tão distantes uma da outra?
         Socialismo e Cristianismo. Serão assim tão desfasados?
         A Religião Cristã ergue-se na Cruz e brota do sangue de Cristo. Sangue e Água. Vida e Amor.
         Deus é Amor, um dos ensinamentos maiores do Cristianismo. E o Amor leva à Verdade, a Deus.
         Numa perspectiva religiosa, Deus é o mistério último da realidade, porque há outros mistérios como o universo e as leis que o regem.
         O Socialismo procura uma sociedade mais Justa, mais Igualitária, onde a Verdade seja o pendão do poder.
         Ora, não foi Cristo um homem, um deus que lutou pela Justiça, pela Igualdade e pela Verdade através do Amor? Não morreu Ele numa cruz, em agonia, por Amor à Humanidade? Não será isso uma forma de manifestar o Amor em estado puro? A Vida?
         E desta forma nasceu o Cristianismo que foi uma verdadeira revolução do mundo antigo.
         O Socialismo surge visivelmente em finais do século XVIII, inícios do século XIX, por Saint-Simon, Fourier, com a revolução industrial, os grandes êxodos rurais das capitais europeias da zona setentrional, com o advento do Romantismo nas Artes, sejam elas a música, a pintura, a literatura.
         Porém, é em meados do século XIX que o Socialismo ganha verdadeira força, com Proudhon e depois com Marx.
         O que nos interessa aqui é a perspectiva de Antero, pois para além de ser um socialista de cariz utópico, com linhas ideológicas de Proudhon, é português, daí esta nossa escolha. É preciso saber valorizar o que se faz, pensa e escreve no nosso país.
         Ora, o Socialismo sempre lutou pelos pobres, pelos mais desfavorecidos. Nunca desistiu de assegurar melhores condições àqueles que viviam miseravelmente.
O Socialismo luta pela Verdade, contra a corrupção e todas as injustiças praticadas em nome da política e da democracia.
         Antero via o Socialismo como a forma mais justa de tornar a sociedade mais igualitária, mais fraterna. Os que não tinham voz deviam ser ouvidos.
         Não foi isto o que Jesus Cristo preconizou? Justiça. Igualdade. Verdade. Não são estas as condições sine qua non do Socialismo?
         A nosso ver, o Cristianismo preconiza a Justiça, a Igualdade e a Verdade através do Amor, enquanto o Socialismo luta pela Justiça, Igualdade e Verdade para podermos chegar ao Amor. Duas formas não diferentes, mas complementares.
         O Socialismo é como um Cristianismo profano, em que o seu deus é a Humanidade, enquanto o Cristianismo é como um Socialismo sagrado que diviniza o homem se ele souber amar e perdoar.
         Eis a forma de vermos o Socialismo numa perspectiva do sagrado. Não será a Humanidade em si um deus tão grande como o Deus Cristão?
         Se Religião é voltar a ligar Socialismo é voltar a ser homem em plenitude, no sentido em que é justo, igualitário e verdadeiro, no sentido em que através destas premissas nos divinizamos e elevamos esta coisa santa que é a Humanidade.
         Política e Religião.
         É certo que os Estados devem ser laicos, isto é, não ter nenhuma religião oficial de modo a haver tolerância religiosa.
         E por tolerância entendemos o admirar e amar o outro por ser diferente, por ter uma outra riqueza que não a nossa, e não o aceitar por aceitar, o aceitar conforme o dever, utilizando aqui uma expressão Kantiana.
         Assim, Política e Religião não estão tão longe uma da outra.
         Assim, o Cristianismo e o Socialismo talvez caminhem de mãos dadas, porque o que interessa é a Justiça, a Igualdade e a Verdade.
         Enfim, o Socialismo deverá ser o Cristianismo dos nossos dias!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Para Ti, Amigo Antero




"A Arte é a coisa santa da Humanidade"

Foi assim que eu conheci o meu amigo Antero de Quental, numa certa tarde ao crepúsculo, ao pé da escadaria da Sé Nova, enquanto ele discursava para um grupo de estudantes que traçava a capa ao vento.

Era alto, de estatura forte, o cabelo e a barba bastante ruiva, o que demonstrava uma certa ascendência britânica e lhe dava um ar quase aristocrático.

Como era bom ouvi-lo a falar das ideias novas que chegavam a Portugal através do vapor que havia poucos anos rasgava a barbárie dura da Península!

Eram ideias maravilhosas! Umas falavam de Hegel e Compte, enquanto outras, ainda mais fantásticas, eram as ideias de um tal senhor Proudhon que mantinha uma acesa discussão com um tal de Karl Marx, uma discussão em que se falava de economia, de um novo paradigma económico e político.

Socialismo.Socialismo. Socialismo.

Era uma palavra nova para os nossos lábios e para os nossos ouvidos.

Socialismo.

O que sabíamos do Socialismo era o que Antero, esse "Génio que era um Santo" como Eça de Queiroz mais tarde o cognominou, lia e sorvia e pensava sobre Proudhon.

Falava-nos do Socialismo Utópico, da necessidade de haver maior repartição da riqueza, da instrução das classes mais desfavorecidas, pois o conhecimento levaria ao desenvolvimento dos pobres. E aí entrava a Arte, a Poesia, a Musa predilecta do meu amigo Antero.

Depois, líamos como discípulos os livros que ele nos emprestava, discutíamos o Socialismo, falávamos do Socialismo. Éramos Socialistas Utópicos!

E a Utopia continuou pelos anos que passaram.

Mais tarde, o meu amigo Antero reuniu-se em segredo, num pequeno barco sobre o rio Tejo, com Socialistas espanhóis, logo após a instauração da breve 1ª República Espanhola, de modo a criar um Federação Ibérica, regida por ideais Socialistas, não republicanos.

O meu amigo Antero era um Socialista e um Romântico, nunca aceitou o Republicanismo por este estar imbuído em ideais positivistas e cientificistas, ideias que Teófilo de Braga defendia e preconizava. Não admirava que o meu amigo Antero cedo se separasse de Teófilo...

Como Romântico que era, como filósofo que era, como poeta que era, o meu amigo Antero tinha constantes crises por confrontar em si o poeta e o filósofo, o romântico e o político.

A República Espanhola sucumbe rapidamente e todos as ideias de Federativismo do meu amigo caem por terra.

Mais tarde, o Ultimatum inglês volta a dar vida ao meu amigo Antero que tinha ido para Paris poucos anos antes da Comuna de 1871, e lá trabalhara como tipógrafo para viver como um operário, um pobre. Era o ano de 1868.

Mas o oposição portuguesa que se levanta face ao Ultimatum está embebida de ideias republicanos, e o meu amigo depressa abandona o cargo que tinha de dirigir palestras e esclarecimentos para o povo em geral, de modo a que este se revolte contra a monarquia.

Tudo tinha feito pelo seu país. Aquelas Conferências do Casino Lisbonense de 1871, a que eu assisti piamente como um discípulo escutanto o seu mestre diante o profano altar do Conhecimento e do progresso.

Mas as Conferências são interrompidas...

Antero partiu para os Açores em Junho de 91 e de lá nunca mais voltou...

Era o dia 11 de Setembro desse mesmo ano dos finais daquele século XIX que tinha sido imenso.

Perto do Convento da Esperança havia um banquinho daqueles de jardim, no céu voavam pássaros e as nuvens sobrevoavam sobre as asas desses pássaros que faziam voos injustos.

O meu amigo tira uma pistola do bolso, dá dois tiros na cabeça e cai para o lado, morrendo minutos mais tarde em agonia.

O meu país empobreceu porque o meu amigo deixou-nos cedo de mais.

Mas o meu país também ganhou tanto com as suas palavras, com a sua Poesia, com a sua Filosofia, com o seu Socialismo.

Antero fez da sua vida uma obra de Arte inacabada, porque era um génio e um santo.

Obra de Arte inacabada que se completa com as suas Odes Modernas , com Tendências Gerais da Filosofia da segunda metade do Século XIX, que foi a sua obra redentora, onde há uma presença forte do Socialismo, ao qual chamo de Socialismo Anteriano, como muitas outras obras que ele pensou e escreveu.

O meu amigo Antero foi um dos pais do Socialismo português, foi dos primeiros seguidores do Socialismo Utópico em terras lusas.

O Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo. A Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.



Obrigado, amigo Antero.