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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Gaitada da Decadência - A bem aventurançazinha da religião



       A Religião e a religião da Igreja e da igreja.
      O Paraíso e um casaco novo no corpo. O perfume da moda e o Espírito Santo.
      Os Santos e as flores que não ficam lá nada bem.
Amigo leitor, aqui estamos novamente perante este grande mundo que é o nosso. Chamar-lhe-ia mundo cão, mas não devemos ofender a espécie canina com as nossas mofas e asneiras. Sim, caro leitor, com as nossas asneiras, as da humanidade.
Com o vento que chega do Sul e de Este, chegou-nos o badalar dos sinos de igrejas várias espalhadas por este concelho de Marco de Canaveses. Com certeza que este exemplo será, em parte, reflexo do resto do país, pois em todos há igrejas e sinos e padres. E se não houver padre chama-se lá a televisão que alguma coisa se há-de arranjar, pois o que interessa é aparecer aos domingos na igreja todo perfumado e bem vestido, não vá o vizinho comentar pela freguesia ou pela cidade que não fomos à missa ou então que fomos com a mesma roupa da semana pretérita. Não se vá agora dizer que isto é mentira, pois se não tem um valor de verdade tem, sim, um grande valor negativo. E além do mais todos sabemos que o concelho de Marco de Canaveses já mostrou várias vezes a sua sábia postura política e maneiras, como se afirma na língua de Hugo, politesse. Um exemplo de cidadania, não tenhamos dúvida!  E o mais engraçado é que as figuras do poder aparentavam ser daquilo que se chama direita e centro-direita ou democracia cristã em política, mesmo até de partidos com índole cristã! Bem-haja, direita, pois Deus é maneta e só acolhe os seus filhos à direita, coitados daqueles que se dizem de esquerda, parece que o inferno é a única solução. Talvez seja esta a explicação dos partidos de direita serem mais conservadores, com perdão da ingénua e quase saramaguiana voz.
Assim, a Religião chegou hoje às nossas páginas, à tinta das nossas finas penas, pois delgadas são as mãos e o personagem que vos escreve isto. Para Ramalhal figura não temos fôlego e só nos comparamos a Eça simplesmente pela esguia estatura, nada mais. Não se vá agora dizer que este gaiteiro se vangloria por ser  Queiroziana figura só pela magreza e não pelo talento. Nunca pelo talento!
Ora, a religião anda pelos mesmos caminhos que o país! A religião e o país andam pelo mesmo caminho que é fora da estrada, que é por desvios e atalhos. Já diz o povo que quem se mete por atalhos acaba por se meter em trabalhos.
Se o país está podre, o que havemos de dizer da igreja? Fazemos desde já a distinção entre igreja e Igreja, assim como Religião e religião, pois nem sempre a Igreja tem Religião, tendo sim, muitas vezes, religião ou religiosidade popular.
Assim, a nossa pena e os nossos monóculos de sol, pois ainda vai havendo sol e não suportaríamos escrever com monóculos normais, deitam-se com este tema, tal como a morte se deita com todos nós.
Eis a fórmula da religião nestas benditas igrejas. Sim, caro leitor! É possível criar fórmulas! Repara como é a receita deste bolo sem açúcar que é a religião e a igreja das aldeias e cidades:

Um pároco com mais de setenta anos, de preferência que seja bom comedor;
Uma população com pouca instrução;
Uma juventude tão interessada na religião como na monarquia e na cultura (menos a juventude isidorense, que serve de metonímia à juventude marcoense);
Uma mão cheia de beatas e línguas delatoras e invejosas;
Uma bíblia ou livro com orações;
Uma aposta invejável na cultura e na arte.


Eis a receita, caro leitor amigo! Agora a fórmula, o procedimento para fazer esta receita é simples, básico:
            Colocar o padre em banho-maria durante muitos anos sobre essa freguesia, bater a população com pouca instrução até ficar em pedras com olhos; Atirar essas pedras à juventude para a arreliar até ficar no ponto; com as línguas delatoras pincelar a igreja e a localidade sempre com a bíblia na mão, de preferência uma bíblia que seja da cor da equipa de futebol do padre, não vá ele zangar-se mais do que o habitual! Por fim, esperar pela aposta na cultura e na arte por parte das juntas de freguesia e das câmaras municipais, que são uns mecenas extraordinários, exemplares!
Assim, caro leitor, tens a receita de um bolo suculento, polémico, em que a vidinha é o objectivo da existência, em que o que os outros fazem, compram, têm, é que interessa verdadeiramente!
            Blague!
            Eis a religião e a igreja.
Uma miríade caleidoscópica, com perdão do atrevimento vocabular, de dogmas personalizados, de orações feitas e repetidas ocamente e sem sentido durante gerações sem fim. E estes dogmas de que falamos são a ignorância, a intolerância para com o progresso, o não saber cativar e chamar a juventude. Adaptando as palavras de Kennedy, pois julgamos ser necessário este pensamento: “Não perguntes o que é que a Igreja pode fazer pelos crentes. Pergunta antes o que é que os crentes podem fazer pela Igreja.”
            Mas não penses, caro leitor, que a juventude é a vítima. Não é não! Em determinadas igrejas há incentivos por parte de outros jovens que querem mudar, inovar a igreja. Esses jovens fazem e pensam, apelam, anunciam eventos, palestras, retiros, debates sobre a religião e a sua importância, mas essa juventude nem lá põe os pés, nem quer saber! E perguntas tu porquê, amigo leitor.
            Respondemos-te de uma maneira simples, directa e verdadeira, pois a verdade e a justiça são as nossas luzes.
            Essa juventude é podre, fala mal pelas costas e é invejosa! Sim! INVEJOSA! E não quer saber das coisas que são feitas por outros, querem sim é que se veja o que eles fazem, porque isso é que é bom, quando às vezes – e com o às vezes queremos dizer quase sempre – é um verdadeiro e grande escrupuloso detrito. Vê o às vezes como um eufemismo, amigo leitor.
            Por isso, atenta, leitor amigo, pois a culpa é dos dois lados!
           Como dissera o padre António Vieira: “Ou é o sal que não salga ou é a terra que não se deixa salgar”. Ainda mal, caro leitor, ainda mal!
        Todos sabemos que a igreja é constituída pelos crentes, cristãos, das várias orientações, neste caso em particular, católicos, que segundo a etimologia quer dizer universal.
            Ora, o que é que os crentes podem fazer pela igreja?
            O que têm vindo a fazer: nada! Julgamos ser esse o redentor caminho com entrada livre e com cartão de descontos no inferno, seguindo uma lógica cristã.
Como os nossos monóculos de sol são atentos e sensíveis como as delicadas patas das aranhas mais raras que tecem as teias muito delicadamente, falamos com alguns jovens cristãos, entre eles alguns seminaristas e antigos seminaristas que nos deram as seguintes respostas.
            Dizemos-te isto, caro leitor amigo, para veres que o que aqui é exposto e escrito não é fruto da nossa Queiroziana e pouco Ramalhal figura, que não é fruto das mais finas e sábias imaginações, como foram as dos nossos mestres pioneiros. Para veres e atestares, caro leitor amigo, que o que nos interessa é a verdade e a justiça.
            Assim, esses personagens que amavelmente falaram connosco disseram-nos que há duas coisas fundamentais a incrementar/mudar na Igreja.

Reformular o colégio de cardeais do Vaticano, de modo que os bispos e cardeais mais jovens, assim como os missionários possam estar presentes nas suas reuniões e concílios;
Abrir as portas da Igreja ao mundo, isto é, tornar a igreja verdadeiramente universal, despir-se do seu fausto, apanágio de séculos passados, e diminuir o clero secular significativamente.

Ora, segundo estes nossos católicos amigos, a igreja necessita de arregaçar as mangas e dar de comer aos que têm fome. Não só a fome espiritual, como a Igreja tanto preconiza, mas também a fome de pão que vem da terra e não do céu, como o maná no deserto veio para Moisés e o seu povo.
   De facto! Caro leitor, não precisará a Igreja Católica de um rejuvenescimento? Não precisará ela de cativar a juventude se quiser ser uma Igreja jovem, apelativa, dinâmica, acolhedora?
    Talvez esta Igreja prefira viver com esta religião de letras minúsculas, de mentalidades minúsculas, de verdadeiros actos de fé e caridade de fim-de-semana!
   O que se vê nesta gloriosa sociedade, fina, chic, culta, activa, nada interesseira, trabalhadora, nova riquinha, católica, ateia, é um reflexo daquilo a que nós chamamos a religião, religião com letra minúscula, religião que parece tornar as pessoas ainda mais minúsculas, religião de minúsculos e para minúsculos de mente e espírito.
     Ora, é fascinante notar esta religião e os seus seguidores. É um voltar a séculos passados.
    Toda esta religião e religiosidade reside em ir à missa ao domingo (ou sábado) para inglês ver, vestir bem e tentar ficar nos bancos da frente, onde se vê tudo. E se passar por um pobre na rua que pede uma refeição faz que não o ouve!
            Hossana nas alturas! Hossana nas alturas! Hossana nas Alturas! Como é maravilhoso estar numa igreja uns dez a quinze minutos antes da eucaristia começar e escutar as múltiplas vozes a cochichar, os saltos altos, novos, que a vizinha de cima comprou e fez questão em mostrar; o casaco novo do professor x, as estridentes e afinadas vozes do coro que faz questão de cantar porque é maravilhoso; o barulho das crianças que quase são empurradas para os bancos da frente; os olhares de todos que se viram para alguém que tenha entrado pela porta lateral.
       São tantas vozes, tantos cochichos, tantos cânticos ensaiados e afinados, tantas gritinhos abafados que quase nos esquecíamos dos santos que olham fixos e espantados para todos estes acontecimentos tão importantes para a vidinha para a salvação das almas! Porque é olhando para quem acabou de entrar na igreja, é falando pelas costas daqueles que estão no outro banco, é criticando fulano, sicrano ou beltrano pela sua vida que iremos ter entrada directa no Paraíso dos Justos, dos Dignos, dos Escolhidos! Blague!
      Acreditamos que chega uma altura em que os próprios santos se devem questionar do que é que estão ali a fazer. São eles que se sentem mal por estar naquela igreja, aliás, são eles que estão a mais porque as flores que estão a enfeitar não combinam com os seus trajes. Um destes dias, parece-nos, leitor amigo, que o sindicato dos santos revoltar-se-á e irá fechar a porta das igrejas aos crentes minúsculos. Bem aventurados os ricos em dar à língua, porque deles é o lugar primeiro nos cafés!
           Julgamos nós que no livro dos livros, a Bíblia, mais propriamente no Novo Testamento, para quem preferir, a Nova e Eterna Aliança, diz que Jesus deu vista aos cegos, fez andar os paralíticos, deu de comer a mais de três mil pessoas, deu de beber a quem sede tinha, entre outras obras grandiosas e milagrosas, apanágio de um filantropo, apanágio, utilizando agora conceitos religiosos, de um Deus, de histórias de um bom Deus, com perdão da Rilkiana voz
            Por isso, existe A Religião e uma religião.
            Na religião ficam estes costumes supramencionados, muito úteis para o senso comum. Com certeza que quem os pratica dirá que isto é mentira. Eu percebo, caros amigos. Mas, em tempo de crise é necessário fazer publicidade por causa da concorrência!
            Rigolade!
        Leitor amigo, se houvesse Religião em todos os poros da existência humana, talvez fosse tudo um pouco diferente.
            Eis que chega a altura de recorrermos a um ilustre amigo nosso, o Sr. Carlos Fradique Mendes.
Este senhor percorreu todas as religiões até as esgotar, nunca as desrespeitando, aliás, entendeu-as com profundidade e intensidade. Mesmo sendo o autor de “Esmaltes e Jóias” obra poética que desde já recomendamos, assim como os poemas nórdicos e românticos que recomendamos também, estes do poeta Ulurus, fantástico homem, de porte atlético, diletante e dândi, chegou à conclusão que é necessário respeitar todas as religiões, pois todas as religiões, diz ele, são verdadeiras, no entanto, nenhuma delas detém a verdade absoluta nem o fundamento, pois seria necessário estarem à frente da verdade e do fundamento, coisa que não estão.
            Como podes ver, leitor livre e amigo, este Fradique é um homem sábio, um verdadeiro diletante.
      Enfim, continuamos a ouvir o órgão desafinado tocando afinadamente. As beatas continuam na sua reza. O padre a todos abençoa. O perfume novo da vizinha paira no ar criando uma atmosfera lasciva e convidativa. As crianças e os velhos quase que adormecem, enquanto Cristo, esse, coitado, lá faz o que pode, pendurado na cruz, nesse mesmo madeiro onde ergueu, como disse um escritor nosso ainda vivo, “a ingénua hipótese do amor”.
            Vamo-nos rir, pois!
             

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Gaitada da Decadência - O amor da juventude pela Cultura



Espantos com laivos culturais em terras perdidas nas trevas de uma ignorância ignóbil.
O Amor Amor Amor pela Verdade, pela Justiça, pelo Bom, Belo e Justo por parte da juventude. O fado de trazer pela despensa e o culto das aparências.
O interesse cultural e intelectual de uma juventude que não é a da nossa terra. A hipocrisia social e o verde obscurantismo numa idade tão bela e seivosa.

Eis-nos, novamente, amigo leitor, sejas quem fores, serás sempre bem-vindo. Tenhas muito ou pouco, não nos interessa, pois terás sempre mais se amares a Verdade, serás sempre maior se adorares com tudo o que tens a Justiça.
Desta vez, os nossos olhos recaem sobre o Norte do país, viajam até à região de Entre Douro, Tâmega e Minho, onde começa o Marão, daí descemos a bendita e harmoniosa serra, deslizamos pelo Tâmega, esse rio do Nosso, sim, Nosso Teixeira de Pascoaes e chegamos ao concelho de Marco de Canaveses. Daí vamos até Santo Isidoro, que parece ter deixado de ser uma só freguesia e foi acoplada por Toutosa dando origem à freguesia da Livração. - Mas destas considerações iremos dar uma gaitada noutra oportunidade. E será uma gaitada forte que não vai cair nas graças das sábias vozes isidorenses. - Mas antes disso, viajemos até à igreja de Santo Isidoro, até ao dia 20 de Outubro de 2012. Já deves estar estafado, amigo leitor, e mesmo até enjoado pelo caminho que fizemos até Santo Isidoro, pois as estradas são feitas de curvas e de buracos. Viva o Progresso!
Ora, no passado dia 20 de Outubro de 2012 foi um dia muito importante para Santo Isidoro, pois houve a inauguração de uma estátua em granito do padroeiro no adro da igreja. Como sempre, sendo uma cerimónia importante não só para a freguesia como para a comunidade religiosa, houve a presença do bispo auxiliar do Porto, D. António Taipa e de outros membros do clero. Até se convidou um grupo de canto gregoriano para dar mais beleza a toda a cerimónia.
Então la começou a cerimónia, no adro da igreja, a população reuniu-se à volta dos muros do edifício, ao pé da estátua, conforme podia.
Por um acaso, os nossos olhos e as nossas mãos também estavam lá, e reparamos logo no ambiente de pompa e circunstância, tudo fatinhos e gravatas, tudo perfumes e águas de colónias, tudo cabelos arranjados e unhas pintadas. Tanta cor e aparência! Tanto ar chic e estética de bolso para inaugurar uma obra de arte feita por mãos que criam o indizível, que falam no silêncio da pedra e da essência daquilo que é Belo: a Simplicidade.
Até o jovem que foi cantar o salmo ia todo dândi, todo janota, vestido de uma forma exagerada e provinciana! Pobre moço, se ao menos percebesse alguma coisa de música e soubesse cantar! Se ao menos amasse a Justiça e a Verdade. Se ao menos soubesse Filosofia e filosofias e sistemas e Ideias. Se ao menos…
O povo assistia à cerimónia, em silêncio, pasmado, olhando para quem estava presente e para quem não estava, observando quem vestia o quê e se isso combinava com a cor da mala ou dos sapatos. O povo lá ia assistindo em silêncio, uns em missão jornalística como aqueles que acima citamos, outros em silêncio, adorando a estátua e o relógio que teimava a tornar o tempo espesso e lento.
No fim da cerimónia houve outros dois eventos dentro da igreja, dos quais os nossos olhos e as nossas mãos e palavras se maravilharam genuinamente: Música. Silêncio. História. Arte.
Houve mais canto gregoriano, houve uma lição de História da Igreja, da Cultura e da Civilização Ocidental. Foi um momento delicioso, e, acredita, leitor amigo, disto não vamos escarnecer, pois foi Justo, Bom e Belo o que dentro daquele pequeno templo românico se passou. Muito belo. Nem criticamos as pessoas de mais idade que foram saindo ao longo desse momento, pois têm os seus afazeres e as suas limitações que, com a idade o tempo pede. Pelo contrário, arrepiamo-nos de uma forma genuína por poder ver gentes, pessoas daquela aldeia escutando o canto gregoriano, deslizando pelas palavras que se escutaram de uma forma apaixonada pelo senhor professor João. Nada disso criticamos ou satirizamos, amigo leitor. Nada disso.
Todavia, o que nos impressionou bastante, e, sejamos sinceros, também já estávamos à espera, foi a presença em massa da juventude isidorense nessa sessão! Foi fabuloso! Eram mais de 50 jovens da aldeia, muitos deles já formados ou a terminar cursos superiores, outros tantos no ensino secundário e ainda outros num ensino mais básico. Mas todos estavam lá presentes. Todos escutavam em silêncio e de forma atenta e genuína o canto gregoriano, a lição de história. Porque todos amam a sua terra e querem conhecê-la um pouco mais, não são daqueles jovens que não se interessam minimamente por cultura e arte e preferem telemóveis e facebook e motas e tardes e noites de ócio saloio em cafés, bares e discotecas. Nada disso, caro leitor! Nada disso! Blague!
A juventude esteve presente em grande número mesmo não havendo porco no espeto, mesmo não havendo cerveja nem poker nem cigarros. A juventude esteve presente mesmo sem fadustagem daquela que Eça e todos os da Geração de 70 satirizavam e escalpelizavam com luvas de pelica, de uma forma irónica, jocosa e deliciosa. Sim, essa fadustagem torpe, que tem várias variações, por que um mal nunca vem só! Oh ilustres peitos lusitanos! Oh pátria de trovadores e poetas! Como a juventude foi uma forte presença nesse dia 20 de Outubro de 2012 em Santo Isidoro!
Que juventude culta e humilde, nada invejosa e nada amante de aparecer nas actividades que só podem ser vistas por multidões e pelos media, sejam eles quais forem! Como é tranquilizante podermos confiar o futuro do país a esta juventude! Uma juventude nada hipócrita e nada invejosa. Uma juventude que chama burro aos outros jovens porque eles não percebem nada de política, de história de nada! Viva o culto das aparências! Viva a hipocrisia social! Pelo menos os escritores, os criadores de teatro e cinema terão imensos temas para retratar e fazer rir o português do futuro, porque é isso que está em causa: o Futuro!     O futuro é o único trunfo que temos na mão. Mas estamos a vender esse trunfo, a hipotecá-lo para pagar dívidas do carro que não podíamos comprar, das férias que não podíamos fazer, da vida que não podíamos ter. E essa forma de estar no mundo é também a forma da juventude. Uma forma de ir estando.
Mas isso não interessa! Não precisamos de política para nada, não precisamos de ler grandes obras literárias, políticas e filosóficas. Nada disso! Leiamos os jornais e criemos opiniões dignas de dois cavalos! Opiniões dignas de um café e um cheirinho! Porque tu és um burro! Tu não percebes nada de política!
            Ainda há coisas que nos deixam pasmados, leitor amigo. Então ouvi dizer que a cultura marcoense e da sua juventude começa no café Jamaica e acaba no Woodrock?! Quem afirmou que são esses meros 50 metros de vida nocturna que traduzem a cultura marcoense?? Quem disse tamanha blasfémia, quem proferiu tamanho anátema?? Então temos a biblioteca municipal sempre cheia de jovens que fazem fila ao balcão para requisitar livros e jornais, enquanto os computadores estão vazios e ninguém viaja pelo mundo facebookiano. Então temos várias propostas da câmara que incentivam a cultura! Temos concursos literários, visitas de escritores portugueses, semanas culturais, apoio a jovens escritores e artistas, oficinas de escrita e poesia. Grupos de leitura, de investigação na área do ambiente, das engenharias, do direito, da política e da filosofia. Temos um ciclo de conferências sobre temas da actualidade, temos concertos de música erudita, parcerias com entidades culturais como a Fundação Eça de Queiroz e a Fundação Calouste Gulbenkian! Temos um manancial de actividades culturais que orgulham imenso o executivo camarário, tudo graças ao pelouro da cultura e da juventude! (Isso existe, verdadeiramente?)
            Agora não venham dizer que os jovens não se interessam pela cultura, que não lêem, que não têm opinião própria. Isso até nos deixa apavorados e angustiados, assim como os pais desta juventude que se interessam  bastante pela cultura e não pela vida do vizinho. Preferem dar um livro ou um bilhete de museu aos filhos do que comprar um telemóvel topo de gama.
Acalma-te, meu querido e amigo leitor, acalma-te, pois a juventude isidorense, marcoense e portuguesa não é assim. Sosseguem, pais que investem no futuro dos filhos. Eles estão habituados a passar dificuldades e a ultrapassarem estas situações sozinhos. Tudo o que dissemos até agora não é apanágio da juventude isidorense, graças às Divinas Alturas da Providência sempre Atenta!
Já agora, façam silêncio, por favor, que os jovens isidorenses querem continuar  a ouvir a palestra de História, pois ao contrário da Alemanha e da Noruega, os jovens portugueses amam a cultura!
Vamo-nos rir, pois!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Gaitada da Decadência - Apresentação




De como decidimos escrever estas páginas e não ir a uma patuscada na taberna da esquina.
            O estado do país, do concelho e uma mini.
            De como os autores destas palavras contemplam o país. A pobreza e as telenovelas. A vidinha. O que a vizinha leu no tarot da revista desta semana.
            O governo de uma maioria fantoche. A oposição e um copo de água no Parlamento.           As estradas e os caminhos de ferro de ontem.
            A cultura de um país.
            O café, o jornal e o sermão do padre. A Religião e a religião.
            Os heróis, os ídolos e os actores. Segredos de uma casa e de um quase país.
            De como surgiu esta ideia da Gaitada da Decadência, fina, com um chic pelo meio. Antero de Quental, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, mestres.
            O monóculo e os Ray Ban.
            O porquê de escrever estas palavras e não ficar online vendo os aviões.
            A vontade da juventude mudar o mundo. As suas ideias revolucionárias ditas no café ao pé de casa. A precoce barriga de cerveja. Os chumbos. A boémia e a vontade de trabalhar.
            O mal dos povos. A inveja.
Tu, leitor livre, aproxima-te um pouco das nossas palavras e lê.
Lê sem compromissos, lê com a liberdade de uma gaivota em alto mar.
          Sim, estas páginas são para ti, leitor de bom senso, socialista, comunista, anarquista, bloquista, social-democrata, independente, cristão, muçulmano, judeu, budista, ateu, agnóstico, filósofo, escritor, jornalista, crítico, filósofo, médico, advogado, agricultor, reformado, desempregado, entre outros.
            É para ti que isto é escrito. E a ideia de te dar assim, com regularidade, umas páginas frescas, jocosas, ardentes, polémicas, verdadeiras, sem nenhum tipo de interesse a não ser a verdade e a justiça. Sim, umas páginas finas, zombeteiras, sarcásticas, trocistas, satíricas. Irónicas.
            Chega-te a nós, não tenhas medo, amigo leitor. Chega-te e espreita de lado, como quem desconfia da esmola que é grande demais.
            O país continua a perder a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão perdidos pelos rochedos mais recônditos de um interior cada vez mais deserto. A prática de viver tem por único fim o comodismo e o comer e beber bem. Não há princípio que não seja criticado. Não há instituição que não seja mordazmente escalpelizada e criticada. O senso comum impera!
            Não há solidariedade entre os cidadãos. Os vizinhos cochicham da vida do outro vizinho e invejam-lhe o jardim, o automóvel, a roupa, o filho, o cão!
            O povo está na miséria. Os serviços públicos estão de rastos, balofos, pesados, não se conseguem mexer com o colesterol e a diabetes de uma crise sempre viúva e fresca. Antes chamavam-lhe crise, pelos vistos, a senhora crise fez uma operação plástica, maquiou-se, arranjou o cabelo e chama-se Dona Troika, um nome americanado, dizem os entendidos em estética económica.
            O desprezo pela Política, pela Cultura, pela Filosofia, pelas Ideias aumenta a cada dia. A juventude sai das aulas para ir para o café falar de barriga cheia do ar e de coisas leves como o vento, se calhar até mais leves e insignificantes que o vento. Não! A juventude sai das aulas e vai para as bibliotecas estudar e pesquisar, sai das aulas e vai até uma instituição social ajudar, sai das aulas e vai até ao hospital visitar os doentes, sai das aulas e ajuda os pais em casa no que for preciso. A juventude pensa e filosofa. Tudo isto faz a juventude! Mas não a do nosso país! Blague!
            Por estas zonas do bendito Norte do país, entre o Douro e o Baixo Tâmega, onde começa e reina o Marão, a maior parte da juventude é caduca e caquéctica. É invejosa e fala pelas costas! Como é que chegamos ao ponto de ter uma juventude, uma verde folha já corrompida pelas mentalidades dos pais também muitos deles invejosos de tudo? É o café que nos prende a vida, é a televisão nacional e os seus programas de enorme interesse cultural que nos estreita o pensamento… A solução parece estar numa fórmula bastante moderna. Mais Prozac e menos Platão, se faz favor.
            Pensa, leitor amigo. Pensa e tens a resposta.
           A juventude arrasta-se envelhecida das mesas das escolas para as mesas de poker ou do café.
            A economia definha, definha, definha. O senso comum impera!
            A indústria fecha. O pequeno comércio fecha. O desemprego galopa a uma velocidade de cruzeiro e os cavalos começam a fazersombra no mar, com perdão da utilização do título do livro de um ilustre escritor da nossa mãe língua, António Lobo Antunes. A cultura não é apoiada. O bom senso e o bom gosto parecem querer fechar também.
            Na rua, nas paragens de autocarro raros são aqueles que têm debaixo do braço, consigo, um livro. Longe vai o tempo em que se viam os jovens com Marx, Proudhon, Taine, Spencer, Keynes, Churchill, Victor Hugo, Byron, Lamartine, Herculano, Garret e muitos outros, caminhando pelas ruas e levando os livros como quem carrega e esconde o futuro e um mundo cheio de possibilidades. Algo grandioso e bom a nascer. Ainda vamos vendo livros, que devem muito ao nome livro, pois mais não são que um aglomerado de páginas, ou seja, a vidinha em folhas de papel, veja-se certos autores portugueses que vendem muito bem essa sucata intelectual. Nomes não os dou, porque as margaridas são flores belas e agradáveis que se devem cheirar e ver no jardim, somente.
            As revistas cor-de-rosa reinam e espalham a sua tinta por todos os poros da sociedade. As pessoas são rosadas pelas leves e fantásticas notícias do high-life.
            Chegou ontem de Nova Iorque a ilustre Betty Graffestein e o seu marido José Castelo Branco. Desembarcaram em Lisboa e já se encontram em casa, o que nos folga bastante e faz-nos adormecer mais tranquilos; ou então: o famoso jogador de futebol, o Sr. Cristiano Ronaldo é pai de uma criança felizarda que é avaliada em cerca de 12 milhões de euros!; melhor ainda: o convidado deste telejornal ou programa é um candidato à casa dos segredos e vem falar-nos da sua vida! Oh maravilhas dos céus! Oh mistérios do Altíssimo! Oh sagrada notícia! Como o mundo se torna num lugar mais justo com estas novidades!
            Blague!
            Eis o que os pincéis e as penas e canetas dessas revistas e mesmo de alguns jornais rosam por este extremo da Ibérica Península!
            Por todo o lado ouve-se dizer que o país está podre, que o país está em crise. Hoje escolhemos utilizar o vocábulo crise em vez de decadência. A magia das palavras. Todos falam da podridão, mas todos parecem gostar de permanecer na podridão!
 
Nós não queremos ser cúmplices da indiferença universal e portugalesca!
            E desta forma começamos, sem injustiça e sem cólera, a apontar o progresso da crise.
            E fá-lo-emos de uma forma humorística e jovial, pois de que outra maneira o poderíamos fazer?
            Os jornais políticos cortariam o que seria nocivo para a ideiazinha, os tipógrafos fariam longos riscos pelas páginas todas.
            Assim, utilizamos este humor fresco, jovem, bem-disposto e sorridente, irónico.
            Que mais uma vez se ponha a galhofa ao serviço da Justiça!
Aqui estamos diante de ti, mundo oficial, democrático, proprietário, burguês,  corrupto e consumista! Não sabemos se a mão que vamos abrir está cheia de verdades. Sabemos que está cheia de negativas.
            Somos dois simples batedores à ordem da mofa e do senso comum. Por agora somos só nós e estas palavras. O grosso da armada vem atrás. Chama-se Justiça.
           
            Eis-nos! E assim vamos dando uma gaitada ao de leve na superfície dos acontecimentos, na sociedade e no established. Cada gaitada simples e humilde, irónica e curiosa, há-de soltar o seu antídoto pelos corpos e pelas veias deste grande corpo a que se chama Sociedade e Civilização.
            Nunca estas gaitadas ferirão verdadeiramente a artéria aorta da sociedade, o chic, os políticos e as pessoas importantes, os corruptos que têm dinheiro como Portugal tem pobres e desempregados!
            Vamo-nos rir, pois!